16 de out. de 2026, 06:00
A psicologia do compromisso: por que o amor exige mais do que apenas sentir
Uma reflexão sobre a visão do psicólogo Erich Fromm que contesta a ideia do amor como um evento passivo e destaca a necessidade de ação consciente nos relacionamentos.
A forma como os catarinenses, e brasileiros em geral, se referem às relações amorosas revela uma crença profundamente enraizada na passividade. Expressões comuns, como 'cair de amores' ou ser 'atingido' por uma paixão, sugerem que o afeto é um fenômeno climático: algo que surge repentinamente, escapa ao controle do indivíduo e desaparece sem deixar rastros. Essa visão, embora romântica, ignora a responsabilidade inerente à construção de vínculos duradouros.
Para o psicanalista e filósofo Erich Fromm, essa percepção é um erro fundamental. Em sua obra clássica, Fromm sustenta que o amor não deve ser interpretado como um estado emocional que simplesmente acontece ao sujeito, mas sim como uma atividade exercida de forma deliberada. Ao tratar o sentimento como algo que se 'tem', as pessoas tendem a esperar passivamente por uma conexão mágica, esquecendo que a manutenção de um relacionamento saudável depende de esforço contínuo, dedicação e escolhas diárias.
No contexto contemporâneo, onde a descartabilidade das relações ganha força através das telas, o conceito de Fromm ganha contornos de resistência. O amor, sob sua ótica, é um processo ativo de 'erguimento'. Isso significa que o afeto é um trabalho de construção constante e não um evento fortuito ou uma queda inevitável. Ao transferir o protagonismo do destino para o indivíduo, a psicologia propõe uma mudança de paradigma: o sucesso afetivo deixa de ser sorte e passa a ser uma competência a ser desenvolvida.
Para o leitor que busca entender os desafios da convivência moderna, a lição de Fromm é um convite à reflexão sobre a própria postura. Abandonar a passividade exige reconhecer que, para que um sentimento seja sólido e sustentável, ele requer energia ativa, paciência e o compromisso ético de cuidar do outro. Em Santa Catarina, estado que valoriza o empreendedorismo em diversas esferas da vida, essa visão de que o amor também precisa ser 'gerenciado' e cultivado encontra solo fértil para uma convivência mais madura e consciente.

