13 de out. de 2026, 06:00
A psicologia por trás da infância: a importância do olhar na busca pela identidade
O psicanalista Donald Winnicott trouxe reflexões profundas sobre o comportamento infantil que ecoam na vida adulta, destacando a tensão entre o desejo de privacidade e a necessidade de reconhecimento.
A brincadeira de esconde-esconde, tão presente no cotidiano das crianças catarinenses, carrega uma camada de complexidade psicológica que vai muito além da diversão momentânea. Para o renomado psicanalista britânico Donald Winnicott, essa dinâmica lúdica ilustra um paradoxo fundamental da condição humana: o prazer de preservar um espaço privado, guardado de olhares alheios, versus o terror existencial de não ser notado por quem amamos.
Na infância, o ato de se esconder é uma forma de exercício da subjetividade. Quando a criança se oculta, ela testa a autonomia do próprio 'eu' e a capacidade de ser encontrada. O desastre, segundo a lente winnicottiana, ocorre quando a busca deixa de existir. Quando os passos se afastam definitivamente e o silêncio se prolonga, o isolamento deixa de ser uma escolha criativa para se tornar uma angústia de invisibilidade. Esse medo de ser esquecido ou negligenciado é o que fundamenta boa parte das inseguranças que muitos adultos carregam em suas relações interpessoais.
Trazer essa reflexão para o contexto atual é essencial. Em uma era de exposição constante e busca incessante por validação nas redes sociais, o conceito de Winnicott nos lembra que precisamos de um ambiente seguro para sermos nós mesmos. A saúde mental depende de um equilíbrio delicado: a necessidade de ter um refúgio pessoal e a certeza de que, quando decidirmos sair dele, haverá alguém pronto para nos encontrar. Ser visto, em um sentido profundo, é o que valida nossa existência e nutre os vínculos afetivos que estruturam a vida em comunidade.
Portanto, olhar para as brincadeiras simples da infância sob a ótica da psicanálise nos ajuda a compreender nossas próprias demandas. O acolhimento, seja na infância ou na maturidade, não é apenas um gesto de cuidado; é o reconhecimento do outro em sua totalidade, respeitando tanto o que ele escolhe esconder quanto a sua necessidade vital de ser descoberto e validado.

