14 de set. de 2026, 03:30
Quando a busca por resultados vira pressão: o alerta de Viktor Frankl
Conceito desenvolvido pelo psiquiatra ajuda a compreender por que tentar controlar o sono, o desempenho e a felicidade pode dificultar experiências que não dependem apenas da vontade.
Descansar para o expediente, falar com segurança em uma reunião e aproveitar o tempo livre parecem objetivos simples. Mas, quando se transformam em cobranças permanentes, podem produzir o efeito contrário: mais tensão e menos espaço para viver a própria experiência. Esse conflito ajuda a entender uma reflexão do psiquiatra austríaco Viktor Frankl sobre os limites de perseguir felicidade e sucesso como resultados inteiramente controláveis.
Em Santa Catarina, o tema encontra um contexto cotidiano que vai das atividades industriais do Vale do Itajaí e do Norte do estado ao setor de tecnologia da Grande Florianópolis. São ambientes diferentes, nos quais metas, qualificação e avaliação de desempenho fazem parte da organização do trabalho. Não se trata de atribuir sofrimento a uma atividade específica, mas de distinguir planejamento profissional de uma exigência impossível: sentir-se bem e render o máximo o tempo todo.
Fundador da logoterapia, abordagem psicoterapêutica centrada na busca de sentido, Frankl descreveu a chamada hiperintenção. O conceito se refere à tentativa excessiva de provocar um resultado que pode justamente ser dificultado por essa insistência. O sono é um exemplo acessível: desejar adormecer não funciona como um comando capaz de desligar o estado de alerta.
Uma dinâmica semelhante pode aparecer diante de uma apresentação. A preparação oferece recursos para a tarefa, mas a vigilância constante sobre cada gesto ou palavra pode disputar atenção com aquilo que precisa ser comunicado. Isso não significa que ensaiar seja prejudicial. A diferença está entre se preparar e exigir de si a garantia de não falhar.
Na perspectiva de Frankl, felicidade e realização tendem a surgir como consequências do envolvimento com algo significativo, e não como produtos de uma fiscalização contínua das próprias emoções. O foco se desloca, assim, da pergunta sobre estar feliz para a relação com uma tarefa, uma pessoa ou uma responsabilidade que tenha valor.
Sobrevivente de campos de concentração nazistas e autor de “Em busca de sentido”, o psiquiatra tornou sua reflexão conhecida internacionalmente. Sua obra, porém, não deve ser reduzida à ideia de que basta mudar de atitude para superar qualquer adversidade. Buscar sentido não elimina condições materiais difíceis, doenças ou a necessidade de apoio.
Para o leitor, a consequência prática dessa discussão não é abandonar objetivos, mas reconhecer os limites do controle. É possível organizar a rotina e se preparar para desafios sem transformar cada noite mal dormida ou momento de tristeza em prova de fracasso pessoal. Quando a ansiedade, a insônia ou o sofrimento persistem e prejudicam a vida diária, uma reflexão filosófica não substitui a avaliação de um profissional de saúde.

