A música, é uma das mais poderosas formas de expressão da arte em manifestar os mais variados sentimentos e afetos humanos, especialmente quando o homem está restrito em sua liberdade, longe de sua pátria, ou sofrendo as dores de amor não correspondido. A par destas circunstâncias, a música no decorrer das décadas mostrou-se uma aliada política, através dela se pode dar voz aos oprimidos.

Assim é que num passado não tão distante, quando nosso país vivia uma noite tormentosa que durou mais de 20 anos, a música conseguiu pequena brecha para levar aos jovens, principalmente, um grito de resistência, não sem dor e consequências.

Foram os anos 60 com seus Festivais da Canção, transmitidos ao vivo pelas TV Excelsior, Record e Globo, aglutinando os jovens. Esses festivais funcionavam como canais de resistência cultural, debate político e engajamento estudantil contra a ditadura militar, principalmente nas capitais do país.

Nesta época eu era uma adolescente interiorana, e na pequena cidade onde eu morava poucos lares tinham televisão, então ouvíamos as músicas e acompanhávamos os festivais pela rádio. Na nossa ingenuidade nada sabíamos acerca da repressão, da ditadura, prisões e tortura. Somente alguns anos depois, 1974 em diante entendi, me inteirei da situação.  Me compadecia em saber as notícias, que chegavam clandestinamente, em papel mimeografado, sobre mortes de estudantes, (hoje sabe-se 32,3% das vítimas fatais do regime) e outras tormentas. Essas apostilas mimeografadas (os jovens terão de se informar), depois eram escondidas e só comentadas em círculo muito restrito, para não corrermos nenhum tipo de risco.

Cantávamos as músicas de Chico Buarque, Caetano Veloso, não entendíamos por que a ganhadora do festival de 1968, ‘Pra não dizer que não Falei de Flores’, de Geraldo Vandré havia sido proibida: “Caminhando e cantando e seguindo a canção, …Vem vamos embora que esperar não é viver, quem sabe faz a hora não precisa acontecer …”, que se tornou hino de resistência e por isso o censor proibiu. Geraldo Vandré foi preso sofreu as agruras do sistema e praticamente sumiu do panteão musical.

A Era dos Festivais durou de 1960 a 1969. O de 1966, fez muito sucesso a música vencedora, de Chico Buarque, “A Banda”, cantada por Nara Leão. Geraldo Vandré compôs disparada, interpretada lindamente por Jair Rodrigues. Em 1967, o marco foi o Tropicalismo, com Caetano e sua Alegria, Alegria, e Gilberto Gil, com as músicas, Domingo no Parque e Chico com Roda Viva.

Em 1969, o último, Paulinho da Viola venceu com “Sinal Fechado”, simbolizando o clima de medo e vigilância impostos pelo AI5. As letras eram cortadas, os artistas vigiados e muitas vezes presos e exilados. 

Os compositores usavam metáforas, poesias cifradas e duplo sentido para burlar a censura do regime e criticar a opressão, a pobreza e a falta de liberdade.

Quando olho para trás e me vejo naquela época: o quanto a vida no interior, nas pequenas cidades estava alijada das questões políticas e principalmente da realidade que o país vivia. Os meios de comunicação eram tão rasos, praticamente só o rádio. As notícias vinham pela Voz do Brasil e sob censura, sempre com loas para os militares. Mesmo o telefone convencional não era para todos. Os jornais seguiam a mesma régua. Então, vivíamos em completa alienação cantando as musiquinhas inocentes da Jovem Guarda, dançando de rosto colado nos bailinhos das tardes de domingo, ao som da vitrola, acreditando que a vida era isso. 

Percebo hoje, o quanto ainda essa alienação sobreviveu. Muitas pessoas passaram por tudo aquilo, distraídas e ainda continuam adormecidas.

Faz lembrar Fernando Pessoa na poesia Eros e Psique, declamada por Maria Bethânia: Conta a lenda que dormia/Uma princesa encantada/…e quando o Principe a encontra, Vê que ele mesmo era/ A princesa que dormia.