Olhe ao seu redor por um instante. Se você é um dos privilegiados que segura este texto em mãos nos portões de um fim de semana prolongado ou de um feriadão, respire fundo. Afaste por alguns segundos o peso dos boletos, a pressa crônica dos dias úteis e o ruído do mundo lá fora.
Antes de tudo, preciso lhe dizer que não escrevo estas linhas por ser um exemplo perfeito de felicidade inabalável. Estou longe disso. Escrevo apenas para compartilhar algumas coisas que tenho aprendido ao longo dos meus 58 anos de jornada — uma estrada onde percebo, a cada dia, que ainda há um universo inteiro a descobrir e outro tanto para colocar em prática.
E a verdade mais urgente e bonita que esquecemos de carregar no bolso é uma só: estar aqui é um presente. Nós fomos agraciados pela existência com o milagre de testemunhar o universo, e a melhor forma de honrar essa dádiva é aprender, finalmente, a saborear os dias.
Viver não é apenas acumular grandes feitos ou esperar por conquistas monumentais. Viver é uma colcha de retalhos tecida com fios invisíveis de pequenas sensações. É o vapor reconfortante de um banho quente que abraça o corpo no inverno, ou o frescor da água na pele sob o calor do verão.
É o sabor exato da refeição que nutre a carne e a alma. É a cor teimosa daquela flor que brotou no canteiro cinzento da calçada pela qual você passa correndo todos os dias. Tudo é experiência. Tudo é sensorial.
O mundo está constantemente conversando conosco através desses pequenos detalhes, mas nós nos tornamos anestesiados pela rotina. O que é normal e repetitivo passa despercebido, e, nessa distração, deixamos a vida escorrer pelos dedos.
É claro que a jornada não é um mar de calmaria. Nem tudo está como gostaríamos. Há dores que apertam o peito e planos que insistem em desandar. Mas viver também é uma questão de perspectiva. Quando olhamos ao redor com honestidade, percebemos a delicada balança da realidade: enquanto atravessamos nossas tempestades particulares, sempre existe alguém enfrentando mares muito mais revoltos. Da mesma forma, há quem olhe para a nossa simplicidade e deseje, com o coração sincero, estar exatamente no lugar onde pisamos hoje.
Essa dança humana inclui os encontros e os desencontros. Há pessoas que são como portos seguros, cuja presença ilumina a sala; outras, por força da nossa própria natureza e sobrevivência emocional, preferimos manter à distância. E tudo bem.
Isso faz parte da arquitetura das relações. O que jamais podemos nos dar ao luxo de esquecer é o imperativo de valorizar quem nos valoriza. O amor, o carinho genuíno e as amizades verdadeiras não são monumentos estáticos; são construções diárias, tijolo por tijolo, afeto por afeto.
O mais fascinante de tudo isso é perceber que essa fábrica de sentimentos, memórias e conexões tem uma sede física. Bem aí, dentro da sua cabeça, um pequeno órgão trabalha sem descanso: o seu cérebro. É ele o artista invisível que traduz a luz do sol em beleza, o abraço em segurança e a perda em aprendizado.
Manter esse santuário saudável é o segredo para uma vida vibrante. Ele tem fome de mundo. Ele se alimenta de uma música que faz o corpo arrepiar, das páginas de um livro que expande o horizonte, das histórias de um filme ou de uma série que nos fazem chorar e rir. Cuidar da mente é manter lubrificada a engrenagem que nos permite sentir.
Aproveite este descanso para fazer essa máquina extraordinária funcionar a seu favor. Não empurre a sua felicidade para a próxima segunda-feira, para as próximas férias ou para quando a vida estiver “perfeita”. A vida perfeita não existe; o que existe é a vida possível, e ela está acontecendo agora.
Faça o que o seu coração pede. Viva intensamente os minutos ociosos. Comemore o simples fato de respirar. Afinal, por mais dura que seja essa verdade, nenhum de nós tem o amanhã garantido por contrato. A vida é um sopro divino e misterioso, e o hoje é o único território que realmente nos pertence.
Seja positivo com a sua história hoje. Abra as janelas da alma, agradeça pelo banho, pela comida, pelos amigos que guardam o seu nome no coração e, acima de tudo, pela sorte imensa de estar acordado para o espetáculo do mundo.
O post A engrenagem sagrada do agora: um manifesto sobre viver apareceu primeiro em OBlumenauense | Notícias de Blumenau e do Vale do Itajaí.
