Há biografias que entram no calendário de um país. Em sete disputas, Lula alcança a quarta vitória presidencial. Aos 80 anos, reverte a desvantagem do primeiro turno e supera Flávio Bolsonaro por mais de quatro milhões de votos. Mas uma vitória dessa dimensão traz uma dívida com o futuro.

O Brasil também voltou às urnas: cerca de três milhões de eleitores a mais compareceram em relação ao primeiro turno. A abstenção caiu para 19,21%, a menor em um segundo turno desde 2006. Brancos e nulos recuaram de 4,77% para aproximadamente 3,24%. Mais brasileiros quiseram escrever o desfecho com as próprias mãos.

Cabe falar em Era Lula como interpretação histórica: um ciclo iniciado em 2003 que tornou a inclusão social referência incontornável do debate nacional. A fome entrou na agenda das decisões; a universidade abriu horizontes onde tantas famílias enxergavam paredes.

Vargas marcou a construção do Estado e dos direitos trabalhistas, mas também governou sob ditadura. A permanência de Lula nasce de quatro eleições diretas. São distintas as raízes dessas duas presenças na história.

O próximo governo precisará alcançar o Brasil inteiro: quem celebrou, quem perdeu, quem anulou e quem ficou em casa. A Presidência pertence também a quem jamais pronunciará com afeto o nome do presidente.

No presidencialismo de coalizão, será necessário construir maiorias no Congresso, negociar diferenças e sustentar compromissos públicos. Acordos precisam produzir escolas, saúde, segurança e equilíbrio das contas. Um Legislativo adverso exigirá diálogo e firmeza.

O legado será medido pela vida que melhorar, inclusive entre seus adversários. Uma era amadurece quando a dignidade deixa de depender de um homem e encontra abrigo nas instituições.