Há noites em que uma cidade parece respirar de outro modo. Não porque suas luzes se acendam mais intensamente, nem porque o mar esteja mais próximo, mas porque alguma coisa invisível acontece dentro dela. Nesta sexta-feira, 30 de outubro, Balneário Camboriú terá uma dessas noites. Às 19h30, no Marambaia Hotel & Convenções, diante do mar, a Academia de Letras de Balneário Camboriú realizará a sessão solene de posse de nove novos acadêmicos. Nove pessoas que chegam trazendo suas histórias, suas palavras e aquilo que cada uma delas descobriu sobre a difícil e delicada tarefa de existir.
Assumem as cadeiras da Academia Geonete Bernardi Peiter, Grazieli de Brito, Mauro José Gaglietti, Milton Luiz Cleve Kuster, Miriam Leal Bitencourt, Oseias Alves Pessoa, Potyra Najara Vieira Macedo Borba, Valdir Cechinel Filho e Wladmir Perez. O convite é assinado pelo presidente da instituição, Eudes Moraes. A saudação aos novos imortais será conduzida pela vice-presidente, Miriam de Almeida, em um pronunciamento especialmente aguardado.
Entre os novos acadêmicos, também estarei eu. Tomarei posse da Cadeira 11, cujo patrono é o poeta Alphonsus de Guimaraens, uma das grandes vozes do Simbolismo brasileiro. Há algo de profundamente simbólico nessa escolha. Em seus versos, Alphonsus fez da lua, da noite, do silêncio e da ausência matérias de poesia. Talvez porque a literatura saiba que nem tudo o que ilumina precisa fazer barulho. Algumas luzes nascem justamente onde a palavra encontra o mistério.
A cerimônia contará com a presença de autoridades e representantes de instituições culturais. Já estão confirmadas representações da Prefeitura Municipal de Balneário Camboriú e da Academia Passo-Fundense de Letras, de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. A eventual participação de representante da Assembleia Legislativa de Santa Catarina ainda depende de confirmação.
A presença da Academia Passo-Fundense terá um significado especial. A instituição será representada por Luiz Carlos Dale Nogari, aos 93 anos, reconhecido por sua trajetória como leiloeiro, com mais tempo de atuação no Brasil e no Mercosul. Sua presença aproxima duas cidades, duas histórias e duas instituições que reconhecem na cultura uma forma de permanência.
Com a posse dos nove integrantes, a Academia de Letras de Balneário Camboriú passará a reunir 32 imortais. Imortais, não porque tenham vencido o tempo — ninguém vence o tempo —, mas porque a palavra escrita pode atravessar gerações, encontrar leitores desconhecidos e continuar respirando quando seus autores já não estiverem aqui.
Essa missão não se encerra nos limites da Academia. Ao contrário, ganha sentido quando encontra outras instituições e pessoas que trabalham diariamente pela cultura. É nesse horizonte que se estabelece a aproximação com a Fundação Cultural, presidida por Karoen Cardoso de Mello, que também exerce a vice-presidência do Conselho Municipal de Política Cultural.
O Conselho, por sua vez, tem na presidência Sibeli Fernandes Luz, que também preside a Câmara Setorial de Literatura. É nesse espaço que escritores, poetas, mediadores de leitura e demais agentes literários participam do diálogo e da construção das políticas públicas culturais.
Em 2026, essa articulação ganhou visibilidade com o 2º Festival Literário de Balneário Camboriú. Foram mais de 3 mil participantes e 62 atividades gratuitas, entre encontros, lançamentos, palestras, oficinas e apresentações. O Edital Álvaro Antônio da Silva, com R$ 300 mil destinados a 11 projetos, também representa um investimento na preservação da memória e do patrimônio histórico-cultural da cidade.
Há ainda um lugar onde a literatura aprende a encontrar seus leitores: a Biblioteca Pública Municipal Machado de Assis. Sob o trabalho e a dedicação de Miriam Ramoniga e Jane Pinto, a Biblioteca mantém sua vocação de acolher livros, leitores, histórias e possibilidades. Mais do que um acervo, é um espaço onde o conhecimento deixa de ser uma promessa e se transforma em encontro.
Fundação Cultural, Conselho Municipal de Política Cultural, Câmara Setorial de Literatura, Biblioteca Machado de Assis e Academia de Letras: instituições com atribuições distintas, mas capazes de compartilhar uma mesma responsabilidade — fazer com que a cultura não seja apenas um acontecimento no calendário, mas uma experiência cotidiana da população.
Talvez seja isso que a palavra imortalidade queira dizer quando deixamos de procurar sua definição nos dicionários. Não é permanecer para sempre em uma cadeira, receber uma medalha ou vestir uma pelerine. É deixar alguma coisa de nós na vida de outras pessoas. É escrever uma frase que alguém encontrará no momento em que mais precisar dela. É oferecer à cidade não apenas livros, mas razões para pensar, sentir, imaginar e respeitar as diferenças.
Nesta noite, Balneário Camboriú receberá nove novos imortais. E eu, ao tomar posse da Cadeira 11, levarei comigo a responsabilidade de honrar Alphonsus de Guimaraens, a literatura e todos aqueles que acreditam que as palavras ainda podem aproximar seres humanos.
Porque uma cidade pode crescer para cima e alcançar as nuvens. Mas também precisa crescer por dentro.
As torres podem desenhar o horizonte de Balneário Camboriú. A literatura ajuda a desenhar aquilo que existe por dentro de uma cidade.
E talvez seja justamente aí que comece a verdadeira imortalidade: quando uma palavra encontra outra pessoa e, sem pedir licença, passa a morar nela.
