O Brasil é um país extraordinário. Aqui, até a democracia precisa de estacionamento.

Dizem que, na disputa pela Presidência do Senado, Davi Alcolumbre anda distribuindo gentilezas. Não são flores, bombons ou cartões de aniversário. São gabinetes bem localizados, vagas de garagem e promessas de participação no condomínio do poder. A notícia é quase comovente. Finalmente, o parlamentar brasileiro encontrou um lugar para estacionar suas convicções.

Sérgio Buarque de Holanda, se estivesse entre nós, talvez reconhecesse na cena a velha cordialidade brasileira. Não aquela bondade de quem oferece café ao visitante, mas a confusão histórica entre o público e o privado. Na República, o favor costuma chegar antes do direito. E, às vezes, vem acompanhado de controle remoto da garagem.

Raymundo Faoro, autor de Os Donos do Poder, encontraria material para mais uma edição. O patrimonialismo continua firme: o Estado parece repartição pública, mas, em determinados corredores, funciona como propriedade de família. Trocam-se cargos, distribuem-se privilégios, negociam-se posições. O cidadão paga o condomínio e não recebe a chave.

Gilberto Freyre talvez enxergasse uma atualização da Casa-Grande. Mudaram os móveis, instalaram elevadores panorâmicos, climatizaram os gabinetes. Mas a velha estrutura de mando continua reconhecível. A senzala, agora, é o estacionamento descoberto, reservado aos que ainda não descobriram a senha do poder.

Roberto DaMatta poderia perguntar: você sabe com quem está falando? A pergunta continua sendo um dos documentos mais importantes da burocracia nacional. No Brasil, não basta ter mandato. É preciso ter padrinho, acesso, influência e, se possível, uma vaga perto do elevador.

Enquanto isso, o Supremo observa. A relação entre Senado e STF parece um casamento de conveniência: um tem a chave da pauta, o outro conhece os caminhos da toga. Há pedidos de impeachment aguardando julgamento político, ministros sob pressão e interesses que se encontram nos corredores da República. Não se pode afirmar que exista um pacto secreto, mas há razões de sobra para exigir transparência.

Afinal, o presidente do Senado não administra um edifício comercial. Administra uma instituição da República. Sua obrigação não é encontrar vaga para os amigos, mas abrir espaço para a democracia.

Eis a ironia: a Constituição garante independência aos Poderes, mas Brasília parece ter inventado a independência com manobrista. Cada um estaciona onde consegue, desde que não atrapalhe o carro oficial.

No Brasil, o elevador social sobe, a garagem é disputada e o povo continua procurando a entrada.

Talvez a próxima reforma política devesse começar pelo estacionamento. Uma vaga para cada senador, outra para a Constituição e nenhuma reservada para os privilégios.

Porque, convenhamos, a República não pode ser transformada numa garagem de condomínio, onde o síndico escolhe quem entra, quem sai e quem tem direito à cobertura.

E o cidadão? Bem, esse continua pagando a conta do combustível.