A Academia de Letras de Balneário Camboriú empossou nove novos integrantes em sessão solene realizada no último dia 30, no auditório do Marambaia Hotel & Convenções. Presidida por Eudes Moraes, a instituição completa 25 anos e, com as posses, passa a reunir 32 acadêmicos.
Ingressaram na Academia Geonete Bernardi Peiter, Grazieli de Brito, Mauro José Gaglietti, Milton Luiz Cleve Kuster, Miriam Leal Bitencourt, Oseias Alves Pessoa, Potyra Najara Vieira Macedo Borba, Valdir Cechinel Filho e Wladmir Perez.
O Página 3 ouviu três dos novos acadêmicos: o professor e escritor Mauro Gaglietti, que também assina uma coluna no jornal, a educadora Geonete Bernardi Peiter e o escritor Oséias Pessôa, que é também Diretor-Geral do CESFI/UDESC (Centro de Educação Superior da Foz do Itajaí) da UDESC Balneário Camboriú.
Entre memórias de infância, pesquisa histórica e experiências em sala de aula, eles compartilham a compreensão de que a posse traz uma responsabilidade que vai além do reconhecimento pessoal.
Mauro Gaglietti: a escrita como outra forma de educar
Aos 65 anos, Mauro Gaglietti viveu em outubro dois momentos de aproximação com a comunidade de Balneário Camboriú: estreou como colunista do Página 3 e assumiu a Cadeira 11 da Academia, cujo patrono é o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens.
Morador da cidade desde 2022, quando chegou para lecionar na Uniavan, ele conta que o ingresso foi precedido pela avaliação de currículo, livros e trajetória pessoal e profissional por duas comissões.
“Sinto que não recebi apenas uma distinção: recebi a responsabilidade de cuidar das palavras, porque elas também precisam de quem as proteja”, diz.
A relação com instituições literárias vem de antes da mudança para o litoral catarinense. Mauro esteve vinculado por aproximadamente duas décadas à Academia de Letras de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, experiência que, segundo ele, ampliou sua compreensão sobre a preservação da memória e a promoção da cultura.
“A imortalidade acadêmica, entretanto, não está em permanecer numa cadeira de imortal. Está naquilo que conseguimos deixar de humano nas páginas que escrevemos e nas pessoas que tocamos”, acrescenta.
Doutor em História pela PUCRS, mestre em Ciência Política pela UFRGS e graduado e especialista em História pela UFSM, Mauro é professor universitário desde 1996. Foi a partir da docência que sua relação com a escrita se intensificou, ao perceber que algumas reflexões precisavam ultrapassar os limites da universidade.
Ele tem 11 livros publicados, com temas que atravessam História, Ciência Política, Direito, mediação de conflitos, relações humanas, memória e literatura. Entre os títulos estão Dyonélio Machado e Raul Pilla: Médicos na Política, Mediação: A quintessência da redução do dano existencial, Covid-19: O avesso do (des)avesso, A Água que Aprende Nomes e O Espelho que Respira.
“Escrever, para mim, é uma maneira de continuar fazendo perguntas quando as respostas parecem ter se esgotado”, acrescenta.
Embora aposentado há aproximadamente nove anos, segue ensinando. Sua experiência inclui disciplinas sobre mediação, justiça restaurativa, empatia, comunicação não violenta e gestão de conflitos, na graduação e na pós-graduação.
“Acredito que um professor não encerra sua vocação quando se aposenta. Continuamos ensinando e educando quando escrevemos, quando escutamos e quando ajudamos alguém a descobrir que também possui uma voz”, aponta.
Uma coluna para dialogar com a cidade
Mauro descreve a mudança para Balneário Camboriú como uma construção gradual de vínculos, amizades e projetos. “Balneário Camboriú deixou de ser um endereço para se transformar em pertencimento”, diz.
É dessa relação que pretende alimentar sua coluna no Página 3, aproximando escritores, leitores, escolas, universidades e instituições culturais. Para ele, a Academia deve atuar em diálogo com espaços como a Fundação Cultural, o Conselho Municipal de Cultura, o Setorial de Literatura, a Biblioteca Pública Machado de Assis e o Teatro Bruno Nitz.
“Não pretendo apenas escrever sobre Balneário Camboriú, mas escrever com a cidade, ouvindo suas vozes, reconhecendo seus protagonistas e registrando suas transformações”, comenta.
Geonete Bernardi Peiter: histórias de pessoas comuns e memórias de Apiúna

A leitura e a escrita acompanham Geonete Bernardi Peiter desde os tempos de escola. Redações, resumos de livros, diários de férias e poemas ajudaram a formar a base de sua primeira obra publicada, A Morada da Saudade: vidas, lugares e memórias.
No livro, ela revisita suas raízes em Apiúna nas décadas de 1950, 1960 e 1970, percorrendo a infância e a juventude por meio de pequenas histórias de pessoas que participaram da formação da identidade da então vila.
“Escrever significa traduzir sentimentos e sonhos em palavras. É um exercício de reflexão sobre a vida, sobre os lugares por onde passamos, sobre as pessoas com quem convivemos e o cotidiano. É um jeito de humanizar a humanidade”, comenta.
Natural de Indaial, Geonete é graduada e pós-graduada em Educação Física pela Furb e professora aposentada da rede pública estadual de Santa Catarina. Também lecionou na Educação de Jovens e Adultos da Univali e no Curso Normal Superior do Instituto Fayal de Ensino Superior, em Itajaí.
A educadora assumiu a Cadeira 5, cujo patrono é o poeta itajaiense Bento Nascimento.
O incentivo para se inscrever na seleção veio do acadêmico Luciano Estevão. Depois de apresentar currículo e livro, passou pela avaliação de duas comissões.
Para ela, integrar a instituição representa um compromisso com a continuidade da produção cultural.
“Estar na Academia de Letras é uma responsabilidade fundamental para manter viva a língua portuguesa e a cultura, promovendo a leitura e a produção literária”, afirma.
Geonete tem outros três projetos de escrita em construção, entre eles um que reúne poemas produzidos ao longo da vida. A memória permanece como uma das forças que impulsionam seu trabalho.
“Há memórias que não apenas contamos, mas habitamos e escrever é uma forma de nos revelar. Às vezes, uma terapia”, completa.
Oséias Pessôa: a história catarinense como ponto de partida para o mistério

Para Oséias Pessôa, a literatura nasceu também de uma inquietação antiga. Ainda criança, brincava nos arredores da antiga residência de Ottokar Doerffel, hoje Museu de Arte de Joinville. As histórias ouvidas dos mais velhos e a descoberta de uma pequena moeda alimentaram a curiosidade sobre os segredos que poderiam existir naquele passado.
Essa experiência ajudou a inspirar O Código de Magnus, romance que combina pesquisa histórica, suspense e ficção e que teve papel importante em sua admissão na Academia.
A trama parte do mistério envolvendo Jacob Muller e sua renúncia ao cargo de vereador na antiga Colônia Dona Francisca, atual Joinville. A partir desse episódio, o autor constrói uma narrativa que atravessa continentes, com mensagens cifradas, sociedades secretas e acontecimentos históricos. A presença de Ottokar Doerffel também convida o leitor a observar os limites entre realidade e invenção.
“Meu propósito foi construir um mistério dentro da própria história. Afinal, a boa literatura não entrega todas as respostas; provoca a inteligência do leitor”, afirma.
Ao comentar a posse, Oséias destaca a responsabilidade com a memória cultural e o papel da Academia na criação de oportunidades para outros escritores. Ele reconhece a atuação do presidente Eudes Moraes na reunião de talentos e no fortalecimento da instituição.
“Liderar não é concentrar protagonismo, mas criar oportunidades para que outros talentos floresçam”, diz.
Assim como Mauro e Geonete, ele entende que o trabalho dos acadêmicos precisa alcançar leitores e estimular novas vozes.
“Acredito que uma Academia de Letras não deve apenas celebrar escritores. Precisa despertar novos autores, aproximar gerações e fazer a literatura ultrapassar suas próprias paredes. Encaro minha posse não como um ponto de chegada, mas como o início de um novo capítulo”, finaliza.

