A arte é testemunha de seu tempo, e muitos artistas conscientes do seu momento histórico criaram marcos em sua época, não só na pintura, mas na música, no teatro, na poesia, em todo o tipo de expressão artística.

A luta entre as classes privilegiadas e o povo miserável, em 1789, resultou na Revolução Francesa, proclamando igualdade entre todos e iniciando a era moderna, influenciando todos os recantos do mundo. Muitos artistas participaram da luta ao lado do povo, destacando-se Eugène Delacroix, com a sua obra muito conhecida: “A Liberdade guiando o povo”, uma mulher à frente do povo, com o peito nu, os cabelos ao vento, erguendo a bandeira da França, representando a liberdade. Outro pintor francês, Jacques-Louis David, pintou seu amigo revolucionário morto: “Marat assassinado”. São obras símbolos deste movimento revolucionário.

A Liberdade Guiando o Povo, de Eugène Delacroix (Museu do Louvre/reprodução).

Sem negar a importância da pintura como movimento político, vejo no teatro, uma forma mais eficaz de transformar mentalidades. Veja-se a obra de Shakespeare, Ricardo III, do séc. XVI, além de tratar da alma humana, sua arte insere política. A peça aborda a luta pelo poder, legitimidade do governo, manipulação política e as consequências da ambição pelo trono, temas muito atuais.

No Brasil, Augusto Boal, teatrólogo, criou o Teatro do Oprimido, no Rio, nos anos de chumbo. Foi um dos principais espaços de conscientização política. O método nasceu como uma resposta política e estética ao recrudescimento da censura, à perda das liberdades democráticas, com a edição do AI-5, em 1970. Boal e o grupo do Teatro Arena, criaram o Teatro-Jornal, técnica que consistia em encenar notícias publicadas no jornal, utilizando ironia, leitura distorcida, para revelar o que a ditadura militar tentava esconder ou manipular. Transformava o espectador em espect-ator, dando voz ao público, que subia ao palco propor soluções para o conflito e treinar a ação social. As peças saiam dos palcos tradicionais e iam para a periferia, junto ao povo, mobilizando as comunidades.

Eram tempos em que a força militar não dava trégua e em 1971, Augusto Boal foi preso e torturado e depois exilado, e foi no exilio na América Latina e na Europa que consolidou as bases teóricas do Teatro do Oprimido conhecido até hoje, inclusive pelos livros que Boal deixou.

Eu tive a sorte de conhecer Augusto Boal, nos anos 90, através do Professor Luiz Alberto Warat, (refugiado político argentino) que no Mestrado de Direito da UFSC, tinha uma cadeira, Direito e Psicanálise e criou: O Seminário do Amor. Uma semana na universidade falando de filosofia, psicanálise, direito e teatro. Cecília, psicanalista e esposa de Boal fazia parte dos palestrantes assim como Boal. Era encontro de estudantes de direito, desde o curso acadêmico até o doutorado e aberto aos interessados, discutindo filosofia, psicanálise e democracia. Tempos maravilhosos em que se acreditava, o passado deixado para trás, para sempre.

(Instagram: Verabedinart    Facebook – Vera Regina Bedin)