“♫ Oh (stop!)/ With your feet on the air and your head on the ground/ Try this trick and spin it, yeah (yeah)/ Your head will colapse/ And there’s nothing in it, and you’ll ask yourself/ Where is my mind?” (Where is my mind?; Pixies)
O personagem Batoré, do falecido humorista Ivanildo Gomes Nogueira, era vidente. Com o seu bordão “Você acha que é bonito ser feio?”, ele trouxe graça para questões que poderiam ser interpretadas das mais variadas formas no seu quadro do programa A praça é nossa. Enquanto alguns só achavam uma graça rasa, havia muito de filosofia na sua sátira.
Hoje, quatro anos depois de sua morte e não sei quanto de seu personagem, a pergunta do Batoré está mais atual do que nunca. As pessoas perderam completamente a noção do bom senso ou o senso do ridículo nas redes sociais. E, pior, parece que tal insensibilidade está transbordando para a vida real. Não que não seja vida real atrás das telas, mas a gente imaginava que lá a pessoa fazia o que fazia por achar que estava protegida pela distância virtual.
E o bordão do Batoré não diz respeito apenas às dancinhas de gosto duvidoso que adolescentes (e agora também profissionais das mais diversas áreas resolveram se sujeitar). Parece que tem sido bonito ser feio em dizer as coisas mais insanas, dissociadas, absurdas e execráveis na internet, seja nas redes sociais, seja nos comentários de qualquer publicação.
Cadê o constrangimento que estava aqui?
Há alguns anos, determinadas manifestações provocariam constrangimento. Atualmente, encontram plateias entusiasmadas, milhares de compartilhamentos e seguidores dispostos a aplaudir qualquer barbaridade, desde que ela confirme suas próprias convicções. A vergonha, que durante muito tempo funcionou como uma espécie de regulador das relações sociais, parece ter perdido espaço para a necessidade permanente de aparecer.
Sei que chovo no molhado repetindo que algoritmos têm participação importante nessa transformação. O fato é que as plataformas descobriram que comportamentos extravagantes, declarações ofensivas e opiniões absurdas despertam reações intensas. A indignação gera comentários, os comentários ampliam a circulação e a exposição recompensa quem provocou o tumulto.
Parece que só nós, usuários das redes, não percebemos. Ao contrário, o fenômeno também alcançou pessoas que, pela formação ou posição profissional, deveriam compreender melhor as consequências de suas manifestações. Médicos, advogados, professores, empresários e autoridades e servidores públicos passaram a disputar atenção com influenciadores que construíram suas carreiras exclusivamente pela exposição. Reputação alheia? Dane-se.
Todas as manifestações têm o mesmo peso?
Existe ainda uma mudança preocupante na maneira como as pessoas lidam com o conhecimento. A facilidade de publicar opiniões criou a impressão de que qualquer convicção pessoal possui o mesmo valor de uma informação fundamentada. Assuntos complexos são resolvidos em comentários agressivos ou argumentações dissociadas da ciência.
Talvez o aspecto mais inquietante seja a naturalização desse comportamento fora das telas. A agressividade verbal, a incapacidade de ouvir opiniões diferentes e a necessidade de transformar qualquer discordância em confronto começam a aparecer em ambientes familiares, profissionais e sociais. Estão aí as eleições para comprovar.
O humor de Batoré tinha uma qualidade que talvez passe despercebida diante da simplicidade de seu personagem. Ao perguntar se alguém achava bonito ser feio, ele expunha a distância entre a maneira como uma pessoa se percebia e a impressão que provocava nos demais. Sua sátira dependia justamente da existência de algum senso coletivo do ridículo. O problema contemporâneo é que esse senso parece cada vez mais enfraquecido.
Seu bordão ganhou uma atualidade que provavelmente nem ele imaginaria. Diante de tanta gente empenhada em transformar o constrangimento em espetáculo, talvez encontrasse hoje material suficiente para permanecer décadas na mídia.
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