Ludwig I da Baviera entrou para a história por caminhos muito diferentes. Ainda jovem príncipe herdeiro, esteve no centro do casamento com Therese de Sachsen-Hildburghausen que, em 1810, deu origem à celebração da qual nasceria a Oktoberfest. Quinze anos depois, subiria ao trono e revelaria outra dimensão de sua personalidade: a de um monarca profundamente interessado em arte, arquitetura, Antiguidade clássica e na criação de símbolos duradouros. Durante seu reinado, construir tornou-se também uma forma de organizar o passado, afirmar a identidade bávara e dialogar com uma ideia mais ampla de pertencimento alemão, num tempo em que essa unidade ainda não existia politicamente.

Foi nesse ambiente que Ludwig passou a transformar paisagens inteiras em lugares de memória. No alto do Michelsberg, acima da cidade bávara de Kelheim, ergue-se um dos exemplos mais impressionantes desse projeto. A construção domina a região onde o Altmühl encontra o Danúbio e, vista à distância, lembra ao mesmo tempo uma fortaleza, uma torre monumental e um templo inspirado na Antiguidade. Sua posição elevada não foi escolhida por acaso: o edifício deveria ser percebido antes mesmo de ser alcançado, como uma presença permanente sobre o território. Já no século XIX, viajantes que chegavam pelo vale do Danúbio descreviam a construção surgindo sobre as alturas de Kelheim quase como uma enorme coroa, antecipando o impacto da visita.

Esse monumento é a Befreiungshalle, literalmente a “Sala da Libertação”, concebida para recordar as chamadas Befreiungskriege, as Guerras de Libertação travadas contra Napoleão entre 1813 e 1815. Mas defini-la apenas como memorial militar seria compreender somente uma parte de sua história. Quando sua pedra fundamental foi lançada, em 1842, ainda não havia um Estado nacional alemão; quando a construção foi inaugurada, em 1863, essa realidade continuava por vir. Para entender por que Ludwig decidiu erguer uma obra dessa escala, é preciso voltar algumas décadas e entrar numa Europa em que a Alemanha já podia ser percebida como espaço cultural, embora permanecesse politicamente fragmentada.

QUANDO A ALEMANHA AINDA NÃO EXISTIA

No início do século XIX, o mapa da Europa Central era profundamente diferente daquele que conhecemos hoje. Durante séculos, grande parte dos territórios de língua alemã estivera vinculada ao Sacro Império Romano-Germânico, uma estrutura formada por reinos, principados, ducados, cidades livres, territórios eclesiásticos e outras unidades políticas com interesses próprios. Baviera, Saxônia, Württemberg, Baden, Prússia e os territórios dos Habsburgos pertenciam a esse universo, mas não respondiam a um único governo. Havia língua, literatura, música, tradições e referências históricas compartilhadas em graus variados; não havia, porém, um país alemão unificado.

A expansão de Napoleão Bonaparte alterou profundamente essa ordem. Depois de sucessivas vitórias francesas, diversos Estados germânicos aproximaram-se da França e, em 1806, formaram a Confederação do Reno, a Rheinbund, sob proteção napoleônica. Pouco depois, Francisco II renunciou à coroa do Sacro Império, encerrando formalmente uma instituição que havia estruturado por séculos a política da Europa Central. Napoleão reorganizou fronteiras, extinguiu pequenos Estados, redistribuiu territórios e elevou governantes de categoria. A Baviera esteve entre as beneficiadas: aliada dos franceses, tornou-se reino em 1806 sob Maximilian I Joseph e ampliou consideravelmente seu território e peso político.

Esse passado é essencial para compreender o monumento que surgiria décadas mais tarde. A Baviera não esteve desde o princípio numa frente “alemã” contra Napoleão; soldados bávaros combateram durante anos ao lado dos franceses, assim como tropas de outros Estados germânicos. Não existia ainda uma Alemanha capaz de agir como um único ator político, e alianças dinásticas, interesses territoriais e circunstâncias militares tinham enorme importância.

A Befreiungshalle domina a paisagem de Kelheim, onde os vales do Danúbio e do Altmühl se encontram. A posição elevada do monumento foi parte essencial de sua concepção e de seu impacto visual. Fonte: Wikimedia Commons – arquivo Kelheim Hafen.

 

DA ALIANÇA À LIBERTAÇÃO

O equilíbrio começou a mudar depois da campanha de Napoleão contra a Rússia, em 1812. A destruição de grande parte da Grande Armée abriu espaço para uma nova coalizão. Prússia e Rússia assumiram protagonismo, a Áustria aderiu posteriormente ao esforço militar e, para os Estados germânicos ligados à França, tornou-se necessário reconsiderar suas alianças. A Baviera rompeu com Napoleão em 8 de outubro de 1813, por meio do Tratado de Ried, e alinhou-se à coalizão num momento em que a guerra entrava numa fase decisiva.

Poucos dias depois ocorreria o episódio que se tornaria central para toda a simbologia da Befreiungshalle. Entre 16 e 19 de outubro de 1813, nos arredores de Leipzig, forças russas, prussianas, austríacas, suecas e de diferentes territórios germânicos enfrentaram o exército napoleônico naquela que entrou para a história como Völkerschlacht, a Batalha das Nações. O confronto mobilizou centenas de milhares de homens e tornou-se uma das maiores batalhas europeias anteriores ao século XX. O 18 de outubro foi posteriormente consagrado como o dia simbólico da vitória, quando a situação das tropas de Napoleão se tornou insustentável e a retirada passou a ser inevitável.

A guerra continuaria. Os aliados chegariam a Paris em 1814; Napoleão abdicaria, retornaria no ano seguinte durante os Cem Dias e seria derrotado definitivamente em Waterloo. Mas 1813 assumiu importância especial na memória alemã e passou a ser associado ao conceito de Befreiungskriege, as Guerras de Libertação. A palavra Befreiung indicava, num primeiro momento, a libertação da hegemonia política e militar napoleônica. Com o passar das décadas, ganhou também outra dimensão: tornou-se parte de uma narrativa segundo a qual diferentes povos e Estados germânicos, apesar de suas divisões, poderiam reconhecer referências e interesses comuns.

A derrota de Napoleão, porém, não produziu a unidade política. O Congresso de Viena estabeleceu, em 1815, a Confederação Germânica – Deutscher Bund, formada por dezenas de Estados soberanos. Áustria e Prússia continuavam disputando influência, enquanto reis e príncipes preservavam seus governos. A questão alemã permanecia aberta, alimentando debates políticos, culturais e intelectuais. Foi nesse espaço entre identidade cultural e fragmentação territorial que projetos monumentais como a Befreiungshalle começaram a ganhar sentido.

LUDWIG I E A ARQUITETURA DA MEMÓRIA

Quando Ludwig assumiu o trono bávaro, em 1825, arte e arquitetura passaram a ocupar posição central em seu projeto cultural. Munique foi profundamente transformada por museus, avenidas, igrejas e edifícios monumentais, mas o interesse do rei não se limitava a engrandecer sua capital. Parte de suas iniciativas procurava relacionar a identidade particular da Baviera a uma memória germânica mais ampla.

Um dos exemplos mais conhecidos dessa política é o Walhalla, erguido próximo a Regensburg como um panteão destinado a personagens considerados importantes para a história cultural do mundo germânico. Sua inauguração ocorreu em 18 de outubro de 1842, justamente no aniversário da Batalha de Leipzig. O Hallo Heimat já abordou esse monumento na matéria “Templo de Walhalla: um monumento à memória alemã” , e sua ligação com a Befreiungshalle é muito mais profunda do que a simples autoria de um mesmo rei.

No dia seguinte, 19 de outubro de 1842, Ludwig I estava em Kelheim para lançar a pedra fundamental da Befreiungshalle. A sequência ficou registrada em Die deutsche Befreiungs-Halle bei Kelheim, publicada em Regensburg por Friedrich Pustet em 1863: a cerimônia ocorreu “am Tage nach dem Eröffnungsfeste der Walhalla”, no dia seguinte à festa de inauguração do Walhalla. Em menos de vinte e quatro horas, Ludwig ligava simbolicamente duas dimensões de um mesmo projeto. O Walhalla reunia grandes nomes da história e da cultura germânicas; a Befreiungshalle recordaria a luta contra Napoleão e a ação conjunta de povos politicamente separados.

 

VINTE E UM ANOS DE CONSTRUÇÃO

A história da obra começara antes daquela cerimônia. O planejamento foi confiado a Friedrich von Gärtner, um dos grandes arquitetos do reinado de Ludwig I, que concebeu uma construção de planta central inspirada em referências da Antiguidade e da tradição cristã. Seu projeto previa uma grande rotunda sobre o Michelsberg e uma solução exterior diferente daquela que conhecemos hoje. A construção avançou lentamente e, quando Gärtner morreu, em 1847, o monumento ainda estava longe de ser concluído.

A responsabilidade passou então para Leo von Klenze, justamente o arquiteto do Walhalla e outra figura central da arquitetura bávara do século XIX. Klenze não se limitou a finalizar o que já havia sido iniciado: alterou significativamente a composição exterior, abandonou algumas soluções previstas por Gärtner e reformulou a cobertura. O resultado é um edifício difícil de enquadrar numa única tradição. Reúne referências clássicas, monumentalidade romana e uma aparência quase fortificada; há algo de templo e de torre defensiva na mesma obra, uma combinação que transmite solenidade, força e permanência.

A construção também exigiu soluções técnicas consideráveis. Em razão do terreno rochoso e irregular do Michelsberg, partes das fundações precisaram atingir profundidades importantes. Sobre essa base ergueu-se a estrutura que sustentaria a imensa rotunda, suas galerias, a cobertura e o pesado programa escultórico. O edifício foi construído predominantemente em tijolos e revestido, enquanto diferentes tipos de pedra foram utilizados em pontos específicos do conjunto. A própria região de Kelheim possuía tradição de extração de pedra, e o material local se tornaria parte visível da obra.

Da colocação da pedra fundamental até a inauguração transcorreram quase 21 anos. Finalmente, em 18 de outubro de 1863, exatamente cinquenta anos depois da jornada decisiva de Leipzig, Ludwig I inaugurou solenemente a Befreiungshalle. Já não ocupava o trono — havia abdicado em 1848 —, mas viveu o suficiente para ver concluída uma obra iniciada mais de duas décadas antes. As datas formavam uma sequência carregada de significado: Leipzig em 1813, o Walhalla em 1842, a pedra fundamental em Kelheim no dia seguinte e, por fim, a conclusão da Befreiungshalle no cinquentenário da batalha.

Concluída a obra, a história deixava de estar apenas nas datas e passava a ocupar cada parte do edifício. Números, esculturas, inscrições e materiais foram organizados para transformar memória em arquitetura.

QUANDO O NÚMERO 18 VIROU ARQUITETURA

Na Befreiungshalle, o 18 de outubro de 1813 não aparece apenas como data comemorativa: foi incorporado à própria geometria. A monumental rotunda repousa sobre um embasamento de três níveis em forma de polígono de 18 lados, enquanto a fachada é articulada por 18 grandes contrafortes, cada um coroado por uma estátua colossal. O número reaparece em outras proporções do conjunto, como nas 54 colunas e 54 pilares — três vezes dezoito — e nas séries de colunas dos níveis superiores. A data de Leipzig deixa, assim, o calendário e passa a organizar o espaço.

Sobre os contrafortes erguem-se figuras femininas colossais modeladas por Johann Halbig, com aproximadamente 5,80 metros de altura. Elas representam alegoricamente 18 povos e regiões associados às campanhas contra Napoleão: Franken, Böhmen, Tiroler, Bayern, Österreicher, Preußen, Hannoveraner, Mähren e Sachsen; Schlesier, Brandenburger, Pommern, Mecklenburg, Westphalen, Hessen, Thüringer, Rheinländer e Schwaben. Como não havia ainda uma Alemanha politicamente unificada, ela podia ser representada como uma comunidade formada por diferentes identidades regionais reunidas num mesmo programa simbólico.

As figuras foram esculpidas em grandes blocos de calcário branco de Kelheim, provenientes de pedreiras próximas. O material estabelece uma relação direta entre arquitetura e território: a Befreiungshalle não apenas ocupa aquela paisagem; parte dela nasceu literalmente da pedra da região. Sobre a entrada principal, uma inscrição resume a função do monumento: “DEN TEUTSCHEN BEFREIUNGSKÄMPFERN / LUDWIG I. KÖNIG VON BAYERN / MDCCCLXIII” — “Aos combatentes alemães da libertação — Ludwig I, Rei da Baviera — 1863”. A grafia Teutschen, hoje substituída por Deutschen, permanece como marca do vocabulário de sua época.

Se o exterior transforma a data de Leipzig em geometria, o interior converte nomes e acontecimentos em memória escrita.

Vista da rotunda a partir da galeria de colunas: abaixo, as Viktorien formam um círculo solene em torno do piso central, enquanto nichos, colunas e galerias estruturam o espaço monumental. | Fonte: GZagatta / Wikimedia Commons – CC BY-SA 4.0.

 

UM EDIFÍCIO TRANSFORMADO EM ARQUIVO DE MEMÓRIA

Acima da colunata, o programa decorativo registra 18 cercos e fortalezas relacionados às Guerras de Libertação: Thorn, Spandau, Dresden, Arnhem, Stettin, Torgau, Danzig, Wittenberg, Herzogenbusch, Cuestrin, Befort, Maubeuge, Marienburg, Philippeville, Hueningen, Auxonne, Mézières e Longwy. Em níveis superiores, outras placas lembram comandantes ligados às campanhas, entre eles Blücher, Wrede, Radetzky, Scharnhorst, Gneisenau, York, Bülow e Schwarzenberg.

Mais do que enumerar episódios militares, essas inscrições fazem com que o edifício funcione como um grande arquivo de memória. Povos, chefes militares, confrontos e fortalezas aparecem distribuídos por paredes e galerias, acompanhando o visitante ao longo do percurso e transformando a própria arquitetura em suporte para a narrativa histórica.

Esse percurso também se desenvolve verticalmente. Escadas conduzem às galerias internas, permitindo observar a rotunda de diferentes alturas, e depois a uma galeria externa superior, de onde se abrem vistas amplas sobre Kelheim e os vales do Danúbio e do Altmühl. O movimento cria uma sequência interessante: primeiro o visitante entra num espaço dedicado à história; depois sobe por ele; finalmente, alcança a paisagem que envolve o monumento.

UM CÍRCULO DE VITÓRIAS

Ao atravessar o portal, a Befreiungshalle muda de linguagem. O exterior compacto e quase fortificado dá lugar a uma rotunda com cerca de 45 metros de altura e aproximadamente 29 metros de diâmetro, iluminada do alto por um opaion, uma abertura no ponto mais elevado da cobertura cônica. As paredes são organizadas por 18 grandes nichos de arco segmentado, enquanto colunas, galerias e inscrições conduzem o olhar para cima. A monumentalidade não depende apenas das dimensões; resulta também da luz, da repetição e da maneira como o visitante se desloca pelo espaço.

Diante dos nichos estão as 34 Viktorien, as deusas da vitória, cada uma com cerca de 3,30 metros de altura. Elas aparecem aos pares e, entre cada dupla, repousa um escudo de bronze dourado sobre um pedestal baixo de mármore. Com a outra mão, cada figura alcança a vizinha, formando um grande círculo solene ao redor da sala. A corrente só é interrompida pelas duas Viktorien posicionadas junto ao portal de entrada.

Essas duas figuras receberam tratamento especial. Foram esculpidas em mármore branco do Tirol e seguram ramos de palmeira com a mão voltada para o portal. Como esse material tinha custo elevado, as demais Viktorien foram executadas em mármore branco de Carrara. Entre elas encontram-se 17 escudos de bronze dourado, associados às batalhas das campanhas contra Napoleão. O monumental portal de entrada, com cerca de sete metros de altura, também incorpora bronze proveniente de peças de artilharia capturadas. Armas retiradas dos campos de batalha foram, assim, convertidas em elementos de lembrança.

A força da composição está na ideia de Eintracht, a união. Nenhuma das figuras existe simbolicamente sozinha; cada uma completa o gesto da seguinte. Não há no centro uma estátua gigantesca de Ludwig I nem um comandante militar dominando a sala. O símbolo principal é coletivo. A mensagem encontra sua formulação mais direta na inscrição do piso: “Möchten die Teutschen nie vergessen, was den Befreiungskampf nothwendig machte und wodurch sie gesiegt.” Em tradução livre: “Que os alemães nunca esqueçam o que tornou necessária a luta pela libertação e aquilo por meio do qual venceram.”

Toda essa linguagem simbólica ganhava significado ainda maior quando se considerava o momento em que o monumento foi inaugurado.

As Viktorien aparecem de mãos dadas no interior da Befreiungshalle, formando uma corrente contínua ao redor da rotunda. Entre cada par está um escudo de bronze dourado ligado às batalhas das Guerras de Libertação. | Fonte: P. Rehulka / Wikimedia Commons – CC BY-SA 4.0.

 

1863: UM MONUMENTO PARA UM PAÍS QUE AINDA NÃO EXISTIA

Em 18 de outubro de 1863, o espaço germânico continuava dividido entre Estados soberanos. A Baviera permanecia reino, enquanto outras monarquias conservavam suas próprias estruturas políticas. Ao mesmo tempo, crescia a disputa sobre como uma futura unificação poderia ocorrer e sobre o papel que caberia à Prússia e à Áustria.

Somente oito anos mais tarde, em 1871, seria proclamado o Império Alemão sob liderança prussiana. A solução política que surgiu não correspondia a todos os projetos imaginados nas décadas anteriores e deixava a Áustria fora do novo Estado. A Befreiungshalle pertence, portanto, a um momento particularmente revelador: aquele em que uma identidade comum já podia ser representada na arquitetura, na literatura, na música e na memória antes de receber uma forma estatal.

É isso que torna o monumento maior do que uma lembrança de Leipzig. Em suas figuras exteriores aparecem diferentes povos; no interior, as vitórias dão as mãos; o número 18 estrutura a geometria; fortalezas e comandantes ocupam as galerias. A arquitetura reunia simbolicamente, num único espaço, aquilo que continuava politicamente separado no território.

O MONUMENTO E A PAISAGEM DO DANÚBIO

A Befreiungshalle também nasceu profundamente ligada à região em que foi construída. Kelheim ocupa uma posição singular na paisagem bávara: ali, o Altmühl encontra o Danúbio; pouco adiante, o rio atravessa as formações rochosas do Donaudurchbruch antes de alcançar a histórica Abadia de Weltenburg. Mais a leste estão Regensburg e o Walhalla. Já no século XIX, viajar até Kelheim significava experimentar história, natureza e arquitetura como partes de um mesmo itinerário.

A aproximação pelo Danúbio fazia parte do efeito. O viajante avançava por curvas do rio, passava por vilas, paredões rochosos e antigos edifícios religiosos até que, em determinados pontos, a Befreiungshalle surgia no alto do Michelsberg. Um relato de 1863 recomendava que o visitante seguisse primeiro até Weltenburg e deixasse o monumento para o final, como um “finis coronat opus” — o fim que coroa a obra. A observação mostra que, desde cedo, a experiência da Befreiungshalle era entendida como algo que começava antes de atravessar seu portal.

Essa relação com a paisagem ajuda também a conectar a Befreiungshalle ao Walhalla. Ambos ocupam posições elevadas próximas ao Danúbio, foram idealizados por Ludwig I e utilizam o território ao redor como parte de sua força monumental. Regensburg, Walhalla, Kelheim, Donaudurchbruch e Weltenburg formam uma sequência na qual história, natureza e arquitetura se encontram de maneira particularmente intensa.

A ligação permaneceu viva muito depois do século XIX. Nas comemorações dos 150 anos da Befreiungshalle, em 2013, a programação reuniu música, debates e outras atividades culturais, incluindo uma corrida simbólica cujo percurso partia do Walhalla, passava pela Befreiungshalle e seguia até Kelheim. Mais de um século e meio depois, os dois monumentos continuavam sendo percebidos como partes de uma mesma geografia histórica.

É justamente essa relação com o território que amplia a força da Befreiungshalle. A subida ao Michelsberg, a vista sobre Kelheim, os vales do Danúbio e do Altmühl, o Donaudurchbruch e Weltenburg compõem uma paisagem cultural na qual os elementos parecem conversar entre si. O edifício não foi simplesmente colocado sobre uma montanha. A montanha, o rio e o horizonte fazem parte dele.

Clay Schulze diante da Befreiungshalle, em Kelheim, durante visita de estudo ao monumento em 2026. A pesquisa em campo permitiu observar de perto a arquitetura, as inscrições e a relação da construção com a paisagem do Danúbio. | Foto: Arquivo pessoal / Clay Schulze.

 

QUANDO A PEDRA GUARDA UMA IDEIA

A Befreiungshalle é, ao mesmo tempo, memorial das Guerras de Libertação, obra monumental da arquitetura bávara do século XIX e testemunho de uma época que procurou transformar acontecimentos recentes em símbolos duradouros. A história real por trás dessa memória foi mais complexa: a Baviera havia combatido anteriormente ao lado de Napoleão, os diferentes Estados germânicos possuíam interesses próprios e a unidade política surgida em 1871 seguiria um caminho que os homens de 1813 não poderiam prever completamente. É justamente nessa distância entre o acontecimento e a forma como ele foi lembrado que o monumento se torna tão revelador.

Talvez nenhuma imagem sintetize melhor essa história do que aqueles dois dias de outubro de 1842. Em 18 de outubro, Ludwig I estava diante do Walhalla, inaugurando um templo destinado à memória dos grandes nomes do universo germânico. No dia seguinte, 19 de outubro, encontrava-se em Kelheim lançando a pedra fundamental da Befreiungshalle. Em menos de vinte e quatro horas, duas obras às margens do Danúbio passaram a representar dimensões diferentes de um mesmo projeto: de um lado, as pessoas e realizações que deveriam permanecer na memória; do outro, uma experiência histórica que ajudava a alimentar a ideia de pertencimento comum.

Quando aquela primeira pedra foi colocada, em 1842, a Alemanha ainda era sobretudo língua, cultura, memória, debate político e desejo de unidade. Quando o monumento foi inaugurado, em 1863, continuava dividida em diferentes Estados. A unificação chegaria alguns anos depois.

No alto do Michelsberg, porém, aquela Alemanha já havia ganhado uma forma: ainda não como país, mas como ideia.

Clay Schulze (@clay.schulze) é Presidente do Centro Cultural 25 de Julho de Blumenau, além de integrante do Männerchor Liederkranz e da Blumenauer Volkstanzgruppe.

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