Uma homenagem ao poeta que fez da intimidade uma forma de literatura.

Carpinejar,

Há pessoas que recebem um nome. Outras precisam inventá-lo para descobrir quem são.

O seu nasceu de uma delicada insubordinação: Carpi, de Maria, sua mãe; Nejar, de Carlos, seu pai. Dois poetas, duas genealogias, duas maneiras de respirar o mundo. Você reuniu o que a vida havia escrito em páginas distintas. E fez do próprio nome uma constelação familiar.

Porque uma família talvez seja isso: estrelas que nem sempre se enxergam, mas continuam exercendo umas sobre as outras a misteriosa gravidade do afeto.

Em você, o sobrenome deixou de ser herança para se tornar criação. Não escolheu entre pai e mãe. Inventou um lugar onde ambos pudessem permanecer, mesmo quando a vida lhes ensinou distâncias.

Há nisso uma beleza quase dolorosa: somos feitos também daqueles de quem precisamos nos separar para descobrir a própria voz.

Sua literatura conhece os pequenos abismos domésticos. Sabe que uma cadeira vazia pode ocupar a casa inteira. Que um abraço adiado envelhece dentro de nós. Que o amor, às vezes, se disfarça de implicância porque tem vergonha de confessar sua ternura.

Você escreve sobre aquilo que todos vivem, mas poucos conseguem nomear. E nos devolve o cotidiano com a estranheza de quem o contempla pela primeira vez.

Nesta noite, no Teatro Municipal Bruno Nitz, Balneário Camboriú recebe mais que um escritor. Recebe alguém que aprendeu a transformar as feridas da convivência em possibilidades de encontro.

E talvez seja essa a grandeza da literatura: permitir que uma pessoa atravesse a solidão de outra sem precisar invadi-la.

Obrigado por nos lembrar que a família não é uma fotografia imóvel, mas um céu em permanente rearranjo. E que amar não significa manter todas as estrelas próximas, mas reconhecer a luz que cada uma deixou em nós.

Bem-vindo, Carpinejar.

Que esta noite as palavras encontrem seus afetos. E que ninguém saia daqui exatamente como entrou. Porque, quando a literatura nos toca de verdade, alguma coisa silenciosa dentro de nós muda de lugar.