A máquina aprende depressa,
devora dados, cospe certezas;
e o homem, em sua pressa,
confunde respostas e se torna “presa”.
A vida pede urgência, imediatez,
exige rendimento;
mas quem mede o pensamento
pelo relógio desse momento?
Mais velocidade:
seria esse o caminho?
Correr sem saber pra onde,
perdido como um cordeirinho?
Acelera-se a história,
encurta-se a reflexão;
há tantas respostas prontas
e pouca interrogação!
A inteligência artificial
segue padrões, reconhece sinais,
todavia não pode, por si mesma, decidir
o que é justo entre os desiguais.
Até sugere respostas,
e simula argumentação;
mas não lhe entreguemos, de herança,
o juízo e a decisão.
A chave do conhecimento
é essencial descobrir:
ela abre portas, rompe muralhas,
ensina a desconfiar do porvir.
Eis que surge o professor,
com sua pilha de afazeres,
laudos, metas, formulários,
mil cobranças, mil deveres.
Exigem que seja tudo:
psicólogo, gestor, mediador;
que cure as dores do mundo,
porém e o reconhecimento de “educador”?
Já olharam, de fato, pra esse ser?!
Quem o vê quando está cansado?
Quem escuta sua palavra
quando o sistema o quer calado?
Quem lhe pergunta o que pensa,
o que sente, o que perdeu,
quando o excesso de exigências
lhe rouba até o que é seu?
Que desprezo ao professor,
sem respeito e pagamento
Só lhe cobram rendimento,
Exigem-lhe inovação,
mas lhe negam o necessário;
querem dele transformação,
às vezes, sob um teto precário.
Segue firme, educador,
mas não confundam firmeza
com aceitar calado a dor,
nem vocação com pobreza.
O professor ilumina
as mentes do mundo inteiro,
mas também precisa de luz,
de pão, de tempo e parceiro.
Há crianças que pedem escuta,
há sofrimentos a enfrentar;
mas quando o diagnóstico vira sentença,
quem lhes devolve o direito de sonhar?
Na sociedade do cansaço,
todos devem produzir…
o sonho tem prazo, nesse caso,
e até mesmo o ócio deve servir.
E quando a máquina disser
que todas as respostas nela há,
que o professor lhe pergunte:
“Mas sabes por que pensar?”
Quando ela trouxer respostas,
que alguém ouse lhe perguntar:
“Quem ganha com essa pressa?
Quem perdemos ao acelerar?”
E que não esqueçamos, afinal,
quem sustenta a escola inteira:
é o professor, ser histórico,
que, entre o cansaço e a esperança,
ainda semeia o pensamento
onde o Poder só quer entrar na dança.
Que não lhe roubem a voz,
nem lhe reduzam o valor;
porque uma sociedade que despreza
quem ensina a pensar
pode até correr mais depressa,
pode até produzir sem parar,
mas, sem mestres respeitados,
fadado estará a colapsar.
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