Um fenômeno que mistura drogas, sexo, aplicativos de relacionamento e encontros que podem se estender por horas ou até dias começa a ocupar cada vez mais espaço também nos consultórios. Conhecido como chemsex, o uso intencional de substâncias psicoativas para facilitar, intensificar ou prolongar experiências sexuais será tema de um encontro médico nesta quinta-feira (17), em Balneário Camboriú.
A palestra “Chemsex: um novo desafio para o tratamento das dependências” será conduzida pela psiquiatra Alessandra Diehl, especialista em dependência química e sexualidade humana.
O evento será realizado no Bistrô Rooftop Terrace, exclusivamente para convidados.
Mais do que discutir quais substâncias são utilizadas, o encontro pretende colocar em pauta um comportamento que atravessa diferentes áreas da saúde. Dependência química, saúde mental, prevenção ao HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), consentimento, redução de danos e a transformação das relações a partir dos aplicativos estão entre os assuntos que cercam o fenômeno.
O conceito de chemsex ainda está em construção e pode variar de acordo com o contexto social e cultural. O termo nasceu da junção das palavras inglesas chemical e sex e passou a ser utilizado internacionalmente para descrever o consumo sexualizado de determinadas substâncias.
Dos aplicativos aos consultórios
Um dos aspectos que chama atenção é a relação entre o fenômeno e a transformação na forma de encontrar parceiros sexuais. A literatura reunida pela especialista aponta que a internet e, posteriormente, os aplicativos baseados em geolocalização passaram a ter participação importante na organização desses encontros.
Nesse universo, surgiu até uma espécie de linguagem própria. Emojis, siglas e códigos utilizados em aplicativos podem indicar desde a procura por determinados tipos de encontros até referências a substâncias.
A apresentação de Alessandra aborda essa cultura digital e como conhecê-la pode ajudar profissionais de saúde a compreender melhor seus pacientes, sem que aplicativos sejam tratados como a causa do chemsex.
Outro aspecto discutido é que não existe uma única configuração para esses encontros. Eles podem acontecer entre desconhecidos que se conectam por aplicativos, entre parceiros que já mantêm vínculo ou em festas e outros ambientes.
A duração também pode variar e, em alguns casos, o consumo prolongado de substâncias pode fazer com que sessões se estendam por muitas horas ou dias.
É justamente quando a experiência começa a interferir na alimentação, no sono, na rotina, no trabalho, nos relacionamentos ou na capacidade de interromper o consumo que novos sinais de atenção aparecem.
Um desafio que vai além da dependência
O chemsex ganhou relevância para a medicina porque seus possíveis impactos não cabem em uma única especialidade.
Entre as questões abordadas estão exposição a HIV e outras ISTs, alterações na saúde mental, dependência de substâncias, vulnerabilidades sociais e situações relacionadas ao consentimento.
A apresentação destaca, por exemplo, que a negociação do consentimento pode se tornar mais complexa quando há alteração do estado de consciência.
A própria formação dos profissionais aparece como um dos desafios. Segundo o material apresentado por Alessandra, estratégias tradicionalmente utilizadas para tratar dependências ou comportamentos sexuais de risco, quando aplicadas isoladamente, podem não contemplar toda a complexidade do fenômeno.
“Precisamos compreender o chemsex sem preconceito e sem moralização. É um fenômeno que reúne prazer, sexualidade, drogas, vulnerabilidades emocionais, tecnologia e questões de saúde pública. O desafio para o médico é conseguir enxergar todas essas dimensões e oferecer cuidado baseado em evidências e redução de danos”, afirma Alessandra.
Brasil ainda tem poucos dados sobre chemsex
Embora o assunto já tenha motivado a criação de serviços especializados e modelos de atendimento integrado em cidades europeias, no Brasil o cenário ainda é marcado pela escassez de pesquisas e protocolos específicos.
Os estudos disponíveis mostram também que os números podem variar bastante conforme a população e a definição utilizada. A apresentação reúne trabalhos que apontam taxas estimadas entre 3% e 29% entre homens que fazem sexo com homens (HSH).
Uma pesquisa nacional com 1.452 homens que fazem sexo com homens encontrou prevalência de 19,4% entre os participantes e identificou associação entre a prática e o uso de aplicativos para busca de parceiros sexuais.
O estudo brasileiro, publicado em 2024, faz parte das referências científicas utilizadas pela especialista.
O desafio, segundo a abordagem apresentada no encontro, não está somente em identificar a prática, mas em criar condições para que quem precise de atendimento consiga falar sobre ela. Vergonha, medo de julgamento e desconhecimento dos próprios profissionais podem afastar pacientes dos serviços de saúde.
Nesse sentido, a redução de danos aparece como uma das principais estratégias de cuidado. A proposta inclui desde orientação sobre práticas sexuais mais seguras e prevenção de ISTs até acompanhamento da saúde mental e atenção ao padrão de consumo de substâncias. A apresentação também destaca a importância de integrar esse atendimento às estratégias de prevenção ao HIV, incluindo a Profilaxia Pré-Exposição (PrEP).
Livro leva discussão para profissionais brasileiros
O encontro em Balneário Camboriú terá ainda o lançamento do livro “Chemsex: um novo desafio no tratamento das dependências”, de Alessandra Diehl, seguido de sessão de autógrafos.
A publicação nasce de uma lacuna identificada pela especialista: ainda há pouca produção em língua portuguesa direcionada à formação profissional, prevenção e cuidado relacionados ao chemsex. O livro reúne evidências científicas e diferentes perspectivas sobre saúde mental, sexualidade, dependências e redução de danos.
Para Alessandra, ampliar o conhecimento dos profissionais é parte essencial para que o tema deixe de ser encarado apenas pelo comportamento sexual ou pelo consumo de drogas e passe a ser compreendido de maneira integrada.
Médica psiquiatra, Alessandra Diehl possui atuação nas áreas de dependência química, saúde mental e sexualidade humana, além de trajetória acadêmica e participação em entidades científicas nacionais e internacionais.
O encontro é organizado pela AFIP (Associação da Foz do Itajaí de Psiquiatria), com apoio da Brace Pharma.
