Encontrar um gambá no quintal, uma capivara perto de casa ou uma tartaruga na praia não é tão incomum. A dúvida aparece na hora de decidir o que fazer. É preciso chamar o resgate ou deixar o animal seguir seu caminho? Em muitos casos, a melhor atitude é manter distância e não interferir.

Em Santa Catarina, a orientação dos órgãos ambientais é clara: encontrar um animal silvestre perto de pessoas não significa, necessariamente, que ele esteja em perigo ou precise ser retirado do local. Se estiver saudável e não oferecer risco, a recomendação é não interferir.

O primeiro cuidado é observar a situação de longe, sem tentar capturar, alimentar ou tocar no animal. Mesmo quando a intenção é proteger, uma aproximação pode assustá-lo e transformar uma situação tranquila em um problema.

Quando o resgate é realmente necessário?

Animais machucados, doentes, presos em estruturas ou envolvidos em situações de conflito direto com pessoas podem precisar de atendimento especializado. Esses critérios estão previstos na Portaria Conjunta IMA/CPMA/CBMSC nº 219/2023, que orienta os procedimentos de resgate da fauna silvestre em vida livre no estado.

A gerente de Biodiversidade do Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA), Vanessa Moraes Nunes, explica que saber identificar essas situações ajuda a proteger tanto os animais quanto a população.

“É importante que a população saiba que nem todo animal silvestre encontrado próximo às residências precisa ser resgatado. Quando o animal está saudável e não há risco efetivo, a melhor conduta é manter distância e permitir que ele permaneça em seu ambiente. Já nas situações que exigem intervenção, acionar o resgate é fundamental para garantir um atendimento adequado, com segurança para as pessoas e respeito ao bem-estar animal”, explica.

Gambá no quintal, cobra perto de casa ou tartaruga na praia: o que fazer?

Cada situação exige uma resposta diferente. Em Santa Catarina, o atendimento funciona de forma integrada entre o IMA, a Polícia Militar Ambiental (PMA), o Corpo de Bombeiros Militar (CBMSC) e as instituições que monitoram a fauna marinha. Cada órgão tem sua responsabilidade, o que ajuda a encaminhar as ocorrências sem intervenções desnecessárias.

  • Animais terrestres — 190: Se encontrar um animal ferido, doente ou preso, sem perigo imediato à vida humana, procure a Polícia Militar Ambiental. Também é possível utilizar os contatos regionais disponíveis no site da instituição. Conforme a avaliação, ele poderá ser solto em um habitat próximo ou encaminhado para atendimento veterinário.
  • Perigo imediato às pessoas — 193: Quando houver ameaça iminente à população, a ocorrência deve ser comunicada ao Corpo de Bombeiros. Isso inclui situações críticas envolvendo animais peçonhentos ou de grande porte. Não tente capturar ou espantar o animal sozinho.
  • Animais marinhos — 0800 642 3341: Aves, tartarugas e mamíferos marinhos encontrados nas praias devem ser comunicados ao Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS). Não toque, não ofereça comida e não tente devolver o animal ao mar. Mantenha distância e aguarde a equipe especializada.

E se uma capivara ou um gambá aparecer no quintal?

A presença desses visitantes pode surpreender, mas não exige automaticamente uma operação de resgate. Se o animal estiver bem e não representar perigo, a orientação é manter distância, não cercá-lo e, se possível, permitir que encontre uma saída. Na maioria das vezes, o visitante vai embora sozinho, da mesma forma que chegou.

Com cobras, o cuidado precisa ser ainda maior. Não tente pegá-las ou afastá-las por conta própria. Quando houver risco imediato às pessoas, ligue para os Bombeiros, pelo 193. Nas demais situações, a Polícia Militar Ambiental pode orientar sobre como proceder.

Já quando animais silvestres aparecem repetidamente em uma propriedade, o problema pode exigir uma solução diferente. Nesses casos, a situação pode ser considerada manejo de fauna, e não um resgate pontual. O manejo de animais silvestres em vida livre é de competência do IBAMA e depende das autorizações aplicáveis.

 

Foto: divulgação / Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA)

O que acontece com os animais depois do resgate?

Nem todo animal recolhido precisa ficar afastado da natureza por muito tempo. Dependendo de suas condições, ele pode ser solto em um habitat próximo ou receber cuidados veterinários antes de voltar à vida livre. É nessa etapa que o IMA desempenha uma função importante.

Embora não realize diretamente o resgate operacional, o instituto organiza e fortalece a rede de atendimento, credencia hospitais e clínicas veterinárias e amplia parcerias para descentralizar e melhorar a assistência aos animais em Santa Catarina.

O órgão também define a destinação dos animais atendidos e administra o Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS), em Florianópolis.

No CETAS, o trabalho não se limita a tratar ferimentos ou doenças. Os animais também passam por processos de reabilitação para recuperar, sempre que possível, a saúde e os comportamentos necessários à sobrevivência na natureza.

O objetivo é que possam voltar ao ambiente natural quando houver condições para isso.

Por que nem todo pedido de resgate termina em captura?

Uma situação que costuma gerar dúvidas é quando alguém comunica a presença de um animal aparentemente machucado, mas a equipe responsável decide não recolhê-lo. Isso acontece porque a captura também tem consequências.

O transporte e a manipulação podem causar estresse, agravar problemas de saúde ou interferir no comportamento natural do animal. Por isso, cada ocorrência passa por avaliação técnica antes de qualquer intervenção.

Mesmo após o acionamento, o resgate não é automático. Se os profissionais concluírem que a captura não é indicada, a recomendação poderá ser apenas observar à distância e evitar interferências. Essa decisão também pode ser uma forma de proteger a fauna.

Em caso de dúvida, a população deve procurar o órgão responsável e seguir as orientações recebidas.

No fim das contas, proteger a fauna silvestre nem sempre significa tirar um animal de onde ele está. Às vezes, a melhor forma de ajudar é simplesmente deixá-lo em paz.

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