(FOLHAPRESS) – O segundo e último debate entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) antes do segundo turno foi marcado por ataques pessoais de ambos os lados e pela disputa entre propostas vagas, do lado bolsonarista, e o passado das gestões do PT, do lado do presidente, que concorre ao quarto mandato.

Flávio usou a expressão “nove dedos” para atacar Lula, que criticou o senador e revidou o chamando de “miliciano”. O candidato do PL se desculpou depois pelo uso da expressão capacitista (o petista perdeu o dedo mindinho de uma mão em um acidente de trabalho em 1964).

Exibido na Globo na noite desta sexta-feira (23), o embate foi o segundo encontro entre os dois candidatos, que não compareceram aos debates do primeiro turno. Empatados nas últimas pesquisas eleitorais, os dois buscaram atrair eleitores indecisos, com o senador tentando moderar o discurso e o presidente apostando no legado de sua gestão.

No primeiro bloco, o petista abriu sua resposta agradecendo aos telespectadores e a Deus —o que havia deixado de lado no debate na Band. Ele rebateu à pergunta do adversário, acusando o governo do pai do senador, Jair Bolsonaro, de deixar obras inacabadas.

Logo no primeiro momento do embate, Flávio, que havia sido criticado por não responder às perguntas e pela falta de propostas concretas no debate da Band no último domingo (18), usou seu tempo para apresentar planos de ampliação de infraestrutura. Ele enfatizou a expansão da rede de internet, sem dar detalhes sobre a implementação.

No mesmo tema, Lula institiu na estratégia de sua campanha de falar dos feitos de seu governo –inclusive os controversos, caso da BR-319, rodovia que corta a floresta amazônica de Manaus a Porto Velho e que foi criticada por entidades ambientalistas.

No primeiro bloco, os candidatos deveriam abordar regiões do Brasil – a começar pelo Sudeste. Lula passou longe e questionou o adversário se ele saberia quanto seria o salário mínimo se não fosse pelos governos do PT. Usou o resto do tempo para questionar Flávio sobre a tarifa zero nos ônibus aos finais de semana, proposta com a qual o bolsonarista disse concordar.

Sem explorar o tema, o senador partiu para críticas sobre taxa de juros e custo de vida, puxadas pelo endividamento, e disse que Lula tira, com “9 dedos”, dinheiro da população.

No bloco seguinte, o presidente cobrou desculpas pelo uso da expressão. “Ele vai ter que pedir desculpa. Porque o povo trabalhador está vendo. Milhões de trabalhadores se acidentam por irresponsabilidade patronal que obriga a gente a trabalhar em jornada que a gente não tem que trabalhar”, disse Lula. “Eu era de menor e trabalhava à noite.”

Na sequência, Flávio pediu desculpas e logo emendou críticas a Lula. “Lula, se eu te ofendi porque eu te chamei de nove dedos, eu te peço desculpa de verdade. Não queria te ofender”, disse. “Agora eu quero saber se você vai pedir desculpas aos moradores de rua que dobraram durante seu governo”, fazendo uma sequência de questionamentos do tipo.

Ainda no primeiro bloco surgiu uma das poucas menções do debate à política internacional. Lula usou a região Sul para falar sobre aposentadoria e insistiu na imagem do “tesouraço” da campanha de Flávio e voltou a comparar as políticas propostas pelo senador às de Jair Milei, presidente argentino de ultradireita. Flávio justificou as políticas do argentino, dizendo que ele pegou um país quebrado pela esquerda.

Durante todo o debate, o petista insistiu em pintar o adversário como incompetente. Disse e repetiu que Flávio parecia um estudante de vestibular “que decora, mas não aprende”. Flávio, por sua vez, apostou em indiretas sobre a idade de Lula, que tem 80 anos. Disse, mais de uma vez, que o petista parecia estar com problemas auditivos e de dicção.

A primeira menção a questões ambientais veio ao final do primeiro bloco, quando os candidatos discutiam a região Norte. Flávio aproveitou a deixa para falar sobre saneamento básico, e Lula trouxe, enquanto criticava o colega, a ideia de economia verde. Ele defendeu, de forma vaga, a manutenção da floresta e das terras indígenas.

O bloco terminou com a região Nordeste – onde se concentra o eleitorado do PT – e, de novo, Lula pintou um “antes e depois” da região, destacando obras das gestões petistas. Flávio respondeu com frases de efeito: “o Nordeste não é problema, é solução” e “eu vou ser o carioca mais nordestino que você já viu na terra”.

A temperatura do debate subiu rápido no segundo bloco. Lula não usou, de cara, todo o tempo que tinha disponível. O mediador Cesar Tralli perguntou ao presidente se ele usaria o tempo restante, algo que havia ocorrido algumas vezes no primeiro bloco. Desde a primeira ocorrência, Flávio se mostrou incomodado com a postura do jornalista. No segundo bloco, ele subiu o tom, causando frisson no estúdio.

Quando o tema mudou para as contas públicas, Flávio pisou no calo da terceira gestão do petista. Lula rebateu com uma pergunta sobre a independência do Banco Central e Flávio trouxe, mais uma vez, sua proposta polêmica de congelamento de dívidas de pessoas físicas e jurídicas. É uma ideia que remonta à era Collor, marcada por inflação descontrolada, congelamentos e sequestros de poupanças.

No terceiro bloco, Lula e Flávio debatem bets e segurança pública. O presidente chamou Jair Bolsonaro de “pai do tigrinho” e Flávio, de “irmão”. Também defendeu a proibição das bets, que, segundo ele, estavam se tornando um “inferno na vida das pessoas”.

Flávio depois escolheu o tema da retomada de territórios do crime organizado e lembrou as posições de Lula sobre saidinha e classificação de facções como organizações terroristas. O presidente citou o caso de Ana Clara, menina de cinco anos morta por um tiro de fuzil, e mencionou a mãe da criança, que estava presente no estúdio. O policial militar acusado de matá-la em 2021, em Niterói, foi defendido por Flávio quando ele já era senador.

Em réplica, Flávio se dirigiu à mãe de Ana Clara, mas errou seu nome, chamando-a pelo nome da filha. “Tenho a confiança de que não foi esse policial que deu esse tiro”, afirmou o senador.

Ao final do segmento, Lula cometeu um ato falho ao dizer que pretende “acabar com a polícia”, em vez de com a milícia. “Aprovada a PEC de segurança, eu vou criar o Ministério [da Segurança Pública], e aí você vai ver o que é um governo acabar com a polícia e deixar o território livre”, afirmou o petista.

No quarto e último bloco, marcado por perguntas de temática livre, Lula e Flávio Bolsonaro concentraram os ataques em acusações sobre corrupção.

O petista mencionou a relação do senador com o advogado Willer Tomaz e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. O presidente também questionou Flávio sobre a disputa envolvendo um imóvel de luxo em Angra dos Reis (RJ), ligado a Tomaz e ao jogador Richarlison. Também citou o orçamento de R$ 134 milhões do filme biográfico de Jair Bolsonaro, o “Dark Horse”.

O candidato do PL, por sua vez, rebateu as cobranças mencionando a revelação da revista Veja de que Vorcaro teria comprado um uísque Macallan 1945, avaliado em cerca de R$ 500 mil, para presentear Lula.

A comitiva do senador inclui governadores eleitos Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) e Sergio Moro (PL-PR) e aliados como o senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP). Marcou presença o irmão Carlos Bolsonaro, ex-vereador do Rio de Janeiro.

Entre os convidados de Lula estavam o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o ministro Guilherme Boulos (PSOL), os ex-ministros Carlos Lupi (PDT) e Rui Costa (PT) e a deputada federal Jandira Feghali (PC do B). Junto a eles estava Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, menina morta a tiros aos 5 anos em uma ação policial em Niterói (RJ). Flávio advogou de graça pelo policial militar suspeito de matá-la.

No primeiro turno, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) largou na frente, com 47,03% dos votos, ante 45,16% do petista.

Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (22) mostra o senador e o atual presidente empatados tecnicamente na margem de erro, com 50% dos votos válidos cada um no segundo turno da disputa.

O debate entre Lula e Flávio desta sexta também ocorre após o cancelamento do confronto que seria promovido pela TV Globo no primeiro turno, consequência de uma série de decisões judiciais que interferiram nos participantes e mudaram a dinâmica do encontro.