A frente de esquerda tem uma conta para administrar depois da passagem de Lula da Silva por Santa Catarina. As declarações despropositadas, estapafúrdias e completamente fora de qualquer contexto eleitoral comprometeram o que deveria ser o grande momento de Gelson Merísio.
Era para fortalecer o candidato. Mas Lula não precisa de adversário. Ele mesmo joga contra o patrimônio.
Tudo delineado
A estratégia estava claramente delineada: colar a imagem de Lula em Merísio, consolidar os votos de esquerda e buscar espaço no centro. Afinal, o candidato passou por partidos de direita e poderia usar essa trajetória para conversar com outros segmentos ideológicos.
Era essa a oportunidade. Atrair indecisos e disputar eleitores inclinados a Jorginho Mello ou João Rodrigues. Mas o presidente resolveu falar exclusivamente para os seus eleitores.
Aplauso não basta
É muito fácil arrancar aplausos da militância. Difícil é conquistar quem está do lado de fora. E era justamente disso que Merísio precisava.
Lula entregou um discurso que agrada aos convertidos e afugenta quem ainda poderia ser conquistado. A fotografia cumpriu sua função. O conteúdo criou problema. Limitou a área de ação do candidato ao governo.
De joelhos?
Dizer que, pelos recursos destinados à agricultura, o agro deveria se ajoelhar diante dele foi de uma infelicidade absoluta. Lula foi pedir votos e acabou cobrando submissão. Depois pergunta por que não gostam dele. Ora, o próprio discurso ajuda a responder.
A desculpa do preconceito
Ao questionar se a resistência ocorre porque é nordestino ou pobre, Lula procura uma explicação conveniente para um problema político.
Ser nordestino não o impede de ser criticado. Sua trajetória pessoal tampouco torna suas decisões inquestionáveis. O catarinense pode rejeitar seu governo pelas ideias, pelas alianças e pelos resultados. Simples assim.
Transformar divergência em suspeita de preconceito é uma maneira de fugir da discussão. E não ajuda Gelson Merísio a conquistar voto fora do espectro esquerdista.
Falou com o fígado
Para completar, Lula disse que quer vencer para manter Bolsonaro preso. Uma provocação desnecessária, num estado em que o ex-presidente tem enorme força eleitoral.
Ele acabou falando com o fígado. Um pronunciamento passional, de confronto, sem a compostura que se espera de quem ocupa a Presidência da República.
A liturgia do cargo ficou pelo caminho. E o adversário ganhou combustível sem precisar fazer esforço.
As urnas explicam
Basta observar 2022. No primeiro turno, Bolsonaro recebeu 62,21% dos votos válidos em Santa Catarina, contra 29,54% de Lula. No segundo, Bolsonaro chegou a 69,27%, enquanto Lula ficou em 30,73%.
Bolsonaro acrescentou pouco mais de sete pontos. Lula, pouco mais de um. Esse resultado não estabelece um teto para agora, mas mostra o tamanho da resistência que o petista precisa superar.
E o que ele faz? Dá mais motivos para essa resistência continuar.
Merísio sem espaço
Gelson Merísio fica espremido. Precisa de Lula para conquistar votos à esquerda, mas também precisa alcançar quem não vota no presidente. Como fazer isso depois de um discurso desses?
Jorginho e João Rodrigues têm motivos para agradecer a oportunidade. Flávio Bolsonaro também pode aproveitar o ânimo que Lula ajudou a injetar nos adversários.
Não estamos dizendo que o filho repetirá automaticamente a votação do pai. Mas o presidente resolveu dar sua contribuição para aproximá-lo desse objetivo.
O que sobra
Vamos observar o desenrolar dos acontecimentos. As próximas pesquisas poderão mostrar se houve efeito eleitoral. Mas, politicamente, erro crasso.
Lula tinha a missão de fortalecer Merísio. Preferiu o confronto e deixou seu candidato administrando explicações.
A imagem ficou colada. O problema também. E, para a frente de esquerda, o saldo dessa passagem tem nome: ressaca eleitoral.
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