Um pedaço de madeira bruta, um torno e mãos habilidosas. Foi assim que a tradição germânica ganhou forma diante do público da 41ª Oktoberfest Blumenau. Nesta quarta-feira (21/10/26), os artesãos Lilian Rose Lemfers e Ronaldo Ortiz Fugihara transformaram madeira em arte durante uma demonstração ao vivo no Boulevard Spaten Garten.
A atividade apresentou aos visitantes a tornearia, técnica conhecida na Alemanha como Drechslerei. Com o movimento do torno e a precisão das ferramentas, a madeira ganha contornos e se transforma em utensílios, brinquedos, objetos decorativos e peças artísticas.
Os dois profissionais integram a Kunst Haus – A Casa do Artesão, instalada no Parque Vila Germânica. O espaço reúne artistas capacitados pelo Programa Artesanato SC Ouro, desenvolvido por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Relações Institucionais.
Da madeira às espadas japonesas
A trajetória de Ronaldo mostra que a criatividade não precisa ficar presa a uma única técnica. Natural de Sabino, no interior de São Paulo, ele mora em Pomerode há 38 anos e construiu boa parte do conhecimento por conta própria, complementando a experiência com cursos de aperfeiçoamento.
Seu trabalho passa pela tornearia, escultura, entalhe, marchetaria, marcenaria e carpintaria. Mas não para por aí. Ronaldo também se aventura pelo desenho artístico, pintura, couro e metalurgia artesanal. Entre suas criações estão até espadas cerimoniais japonesas.

Já Lilian Rose Lemfers cresceu cercada pelo fazer artesanal. A atividade faz parte de sua vida desde a infância, mas foi em 2012 que passou a se dedicar à tornearia em madeira.
Atualmente, suas peças autorais carregam referências da arquitetura enxaimel, das paisagens naturais e dos costumes de Blumenau e do Vale Europeu. Além da produção artística, Lilian está à frente da Associação dos Artesãos de Blumenau – Kunst Haus.
Para ela, trabalhar a madeira também significa manter uma ligação com as próprias origens. “Como artesã e descendente de alemães, vejo nessa atividade uma maneira de manter viva parte da história dos nossos antepassados. Afinal, preservar a cultura não é apenas recordar o passado, mas também dar continuidade aos conhecimentos e às habilidades que herdamos”, destacou.
Uma tradição que chegou com os imigrantes
Muito antes de aparecer nas demonstrações da Oktoberfest, a tornearia já fazia parte do cotidiano de famílias alemãs. O torno servia tanto para produzir objetos necessários à vida doméstica quanto para criar peças artísticas e garantir o sustento.
A atividade ganhou ainda mais espaço entre os séculos 17 e 18. Com a mineração em declínio em determinadas regiões da Alemanha, muitas famílias encontraram na madeira uma alternativa para sobreviver e transmitir um ofício aos filhos.
Esse conhecimento atravessou o oceano com os imigrantes alemães que se estabeleceram no Vale do Itajaí. Carpintaria, marcenaria e tornearia passaram a fazer parte da formação das comunidades locais. Em 1852, apenas dois anos após o início da colonização de Blumenau, já existia registro de um torneiro na colônia.
Mais de 170 anos depois, o trabalho continua presente na cidade, agora também como expressão artística. Nas mãos dos artesãos, a técnica incorpora personagens, símbolos e referências que ajudam a contar a história de Blumenau e da região.
Na Oktoberfest, a demonstração de Lilian e Ronaldo mostrou que a herança germânica não está apenas nos trajes, na música ou na gastronomia. Ela também aparece no movimento de um torno e na habilidade de quem aprendeu a dar forma à madeira.













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