A unidade de conservação mais visitada do Brasil não fica na Amazônia, nem em nenhum dos grandes parques nacionais do país. Fica no litoral de Santa Catarina: mais de nove milhões de pessoas passaram pela Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca em 2025, segundo dados do ICMBio.

O motivo por trás desse número é, à primeira vista, contraintuitivo. Na APA, criada há 26 anos para cuidar do principal berçário da espécie ameaçada de extinção, a observação embarcada de baleias é proibida desde 2013.

Enquanto a maior parte dos destinos de whale watching no mundo compete para aproximar turistas dos animais, o litoral catarinense fez o oposto, e transformou a restrição em seu maior ativo turístico.

A proteção do território que hoje soma 156 mil hectares e 130 km de costa, entre Florianópolis e Balneário Rincão, ocorreu em nome de uma espécie que, décadas atrás, havia praticamente desaparecido da costa brasileira. Entre 1973 e meados dos anos 1980, não existe um único registro de baleia-franca-austral (Eubalaena australis) no litoral do país, resultado de séculos de caça voltada à extração de óleo para iluminação.

Hoje, a população monitorada pelo Instituto Australis soma cerca de 800 indivíduos, crescendo a uma taxa de 4,8% ao ano em uma série histórica de 20 anos. Em 2026, o primeiro avistamento da temporada ocorreu em maio — um dos registros mais precoces já feitos —, sinal de que a curva de recuperação segue firme. Em agosto, a entidade registrou o avistamento recorde de 173 animais em um único dia entre Florianópolis e Torres (RS), sendo 98 apenas em Imbituba.

Sem barcos se aproximando das enseadas onde as fêmeas dão à luz, a experiência de observação foi reconstruída a partir de praias, dunas, trilhas e mirantes. A baleia continua sendo a protagonista, mas o produto turístico passou a ser o território.

“A experiência de observação tende a aumentar o interesse dos visitantes pela espécie. Eles procuram nosso centro para saber mais sobre o trabalho de conservação, e isso fortalece a percepção da importância de proteger esse patrimônio natural, um importante instrumento de proteção da baleia-franca”, afirma Karina Groch, bióloga e diretora de Pesquisa do ProFRANCA/Instituto Australis, Centro Nacional de Conservação da Baleia Franca.

Esse modelo levou o berçário de Santa Catarina a se tornar, em dezembro de 2025, a primeira Área Patrimônio de Baleias (Whale Heritage Area) do Brasil e a segunda da América Latina — reconhecimento concedido pela World Cetacean Alliance a destinos que equilibram conservação, ciência, cultura comunitária e turismo responsável. A região se junta a outros 11 destinos no mundo, entre eles Madeira (Portugal) e Hervey Bay (Austrália).

Créditos: Mariana Favaro / Instituro Australis