A trajetória profissional construída entre Alemanha e Brasil ganhou uma nova dimensão institucional para Markus Blumenschein. Na manhã da última sexta-feira (18/09/2026), o empresário concedeu entrevista ao portal OBlumenauense após ser oficialmente designado Embaixador Honorário do Estado de Santa Catarina para Assuntos da Alemanha.

A nomeação foi publicada no Diário Oficial do Estado em 11 de setembro de 2026 (Decreto nº 1.688), assinado pela vice-governadora Marilisa Boehm. O mandato terá duração de quatro anos e poderá ser renovado.

Criado pelo Decreto nº 1.502 (abril de 2026), o Programa Embaixadores Honorários busca ampliar a inserção internacional catarinense e aproximar o Estado de empresas, investidores, instituições de pesquisa, universidades e organizações estrangeiras. O cargo tem caráter estritamente honorífico, sem remuneração ou vínculo funcional.

Há uma distinção importante. Blumenschein representa Santa Catarina em assuntos relacionados à Alemanha, e não o governo alemão em território catarinense. A representação diplomática oficial continua sob responsabilidade da Embaixada da Alemanha, dos consulados-gerais e dos consulados honorários.

Para Blumenschein, a nova função conecta diferentes etapas de sua carreira. Natural de Friedrichshafen, na Alemanha, ele vive em Blumenau desde 2010 e tem mais de 25 anos de atuação em tecnologia da informação, projetos internacionais e cooperação econômica.

Doutor em Geografia Econômica e Social pela Universidade de Tübingen, foi executivo da T-Systems no Brasil entre 2010 e 2020. No período, participou da expansão de uma operação que passou de aproximadamente 150 para mais de 700 profissionais. Atualmente, é fundador e CEO da EB-ISCO, companhia de consultoria em tecnologia e transformação digital que atende, entre outros mercados, clientes alemães e suíços.

A conexão institucional entre os dois países também faz parte de seu currículo. Blumenschein presidiu a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (AHK) de Santa Catarina (2014 – 2018), coordenou o Ano Brasil-Alemanha no Estado (2012-2013), integrou o conselho consultivo do InovAmfri e presidiu o Rotary Club Blumenau (2017 e 2018). Seis anos após se estabelecer no Vale do Itajaí, Markus recebeu o título de Cidadão Honorário de Blumenau.

Na entrevista ao OBlumenauense, ele aborda desde a atração de investimentos alemães até questões consideradas estruturais para o crescimento catarinense, como disponibilidade energética, infraestrutura urbana, universidades, formação profissional e capacidade tecnológica.

Também cita oportunidades relacionadas a biogás, centros de dados, pesquisa aplicada e o intercâmbio entre universidades catarinenses e alemãs.

“A nomeação é resultado de uma trajetória construída ao longo dos anos”

OBlumenauense: Como surgiu esse convite?

Markus Blumenschein: Acho que é resultado da minha atuação profissional — na época, como diretor da T-Systems — e também do meu envolvimento com a economia e a capacitação aqui na região. Além disso, houve minha atuação na Câmara Brasil-Alemanha, tanto no Ano Alemanha+Brasil (2013 – 2014), quanto como presidente honorário da AHK Santa Catarina (2014 – 2018). Depois, atuei na região da Foz do Rio Itajaí, no InovAmfri.

Em todas essas atividades, sempre tive interação com o atual secretário executivo de Articulação Internacional, Paulinho Bornhausen. Já há algum tempo ele vinha conversando comigo sobre essa relação. No início do ano, voltou a me procurar e perguntou se eu teria interesse.

Considero que tenho alguma experiência, também pela minha formação como geógrafo, com foco em Geografia Econômica e Social, planejamento de clusters industriais, gestão e planejamento urbano, logística e transporte. São áreas em que atuei nos anos 1990, durante o mestrado e o doutorado, sempre mantendo uma ligação com o Brasil.

Indústria, tecnologia e infraestrutura

OBlumenauense: Dentro da sua estratégia de trabalho, onde você percebe as maiores oportunidades para o Brasil, Santa Catarina e Alemanha?

Markus Blumenschein: Minha base profissional nos últimos 27 anos foi a tecnologia da informação. Porém, minha atuação abrange todas as indústrias e também as questões socioculturais e ambientais de que o Estado precisa e nas quais a Alemanha pode contribuir.

Ontem, por exemplo, tive uma longa reunião com o diretor do escritório do Instituto Fraunhofer, o alemão Manuel Steitle, antigo gerente da Fundação Certi.

O Fraunhofer, que hoje tem 32 mil colaboradores, é uma das maiores instituições de pesquisa da Alemanha, ao lado do Max Planck. Eles têm muito a contribuir, seja na pesquisa de materiais, na recuperação de terras degradadas ou em outros temas. Já houve uma atuação do Fraunhofer aqui no Estado, mas agora queremos que eles se envolvam mais.

A pergunta é: o que o Estado precisa? Isso exige uma análise profunda das regiões. Onde estão os grandes polos? Onde empresas alemãs podem se instalar?
Não adianta pensar apenas em um campo verde com terra. É preciso ter infraestrutura urbana.

A BMW, por exemplo, instalou-se na região de Joinville porque uma das grandes questões era saber onde os expatriados poderiam colocar seus filhos para estudar. Era necessária uma escola bilíngue. Na época, também cogitaram o Vale do Itajaí, mas não havia essa possibilidade. Então, é preciso fazer uma leitura do território, inclusive da questão energética, identificando onde existe melhor disponibilidade de transmissão.

A demanda energética do Estado vai dobrar nos próximos dez anos. Isso é relevante para a implantação de futuras indústrias, mas também para encontrar soluções de geração de energia. E a Alemanha pode contribuir nesse processo.

Além disso, na área cultural, vejo que em 2028 teremos os 200 anos da imigração alemã em Santa Catarina. O governo do Estado já se prepara para essa comemoração.

A Alemanha não é um país qualquer nessa relação. Uma porcentagem considerável da população catarinense tem ascendência alemã. Então, o peso sobre mim é um pouco maior do que o de outros embaixadores honorários. Temos quinze nomeados agora, incluindo um para a Suíça.

Energia entra no radar da cooperação

OBlumenauense: Você falou sobre a questão da energia. A Europa e a Alemanha têm forte atuação nas áreas eólica e solar. Existem planos de trazer empresas alemãs para produzir equipamentos em Santa Catarina?

Markus Blumenschein: Acho que o governo do Estado pensa nas duas possibilidades. Uma é trazer empresas para produzirem equipamentos aqui e, a partir de Santa Catarina, exportarem para o Mercosul e até reexportarem para a União Europeia.

A outra é a questão energética em si. Já houve, há mais de dez anos, interesse de uma empresa alemã em se instalar na região de Blumenau para produzir placas solares. Não sei como isso evoluiu.

Mas posso citar um projeto-piloto de usina de biogás a partir de resíduos da produção animal, em Pomerode. Essa empresa depois trabalhou junto à Assembleia Legislativa para adequar as leis e permitir a comercialização do gás, inclusive em cooperação com a SCGás.

O projeto foi financiado pelo KfW (Kreditanstalt für Wiederaufbau), banco de fomento estatal alemão, semelhante ao BNDES no Brasil. Nessa semana visitei a empresa Vossko, em Lages, onde estão inaugurando uma usina de biogás que produz energia a partir de resíduos da própria fábrica.

OBlumenauense: A região Oeste tem grande potencial nessa área, considerando a concentração da suinocultura e da indústria de abate?

Markus Blumenschein: É uma questão muito relevante, tanto para gerar energia a partir das sobras da produção pecuária quanto para proteger o lençol freático contra a contaminação. Por meio do Fraunhofer, aprendi que existem tecnologias para limpar o gás antes de queimá-lo para gerar energia elétrica.

Não sou especialista para dizer que a tecnologia alemã é sempre a melhor, mas há interesse dessas empresas, inclusive com apoio do governo alemão. Vamos aproveitar para que possam participar da construção da Nova Santa Catarina, preparando o Estado para o futuro.

Universidades e formação entram na equação

OBlumenauense: Você comentou sobre a infraestrutura necessária para receber indústrias e executivos. Há espaço também para ampliar a relação cultural e linguística e a aproximação entre universidades?

Markus Blumenschein: Não posso falar pela Alemanha. Estou do lado do Estado de Santa Catarina. Mas vejo que já existem cooperações entre universidades. A FURB, por exemplo, mantém parcerias com várias universidades alemãs, inclusive Ilmenau, com intercâmbio de estudantes. O aprendizado do idioma é a base para o sucesso desse intercâmbio.

Na UFSC, há cooperação com a RWTH Aachen na área de engenharia mecânica. Muitas pessoas que trabalham hoje na Fundação Certi ou na WEG, empresa fundada pelos irmãos Bottos, são resultado desse intercâmbio. Isso deveria ser fortalecido.

Estive durante muito tempo à frente do Conselho de Língua Alemã em Blumenau. Uma coisa é a oferta de cursos; outra é o interesse da população. Fizemos, por volta de 2016, uma campanha da Câmara Brasil-Alemanha com o Consulado-Geral em Porto Alegre, chamada “Ich spreche Deutsch (Eu falo alemão)”, apresentando profissionais brasileiros que tiveram portas abertas pelo conhecimento do idioma.

Quando cheguei, em 2010, havia uma certa vergonha de falar alemão para algumas pessoas. Isso mudou. Mas ainda há pais que dizem: “Não quero que meu filho faça o curso e obtenha o certificado”. É um trabalho que precisa ser continuado e ampliado.

Blumenau dentro de uma agenda estadual

OBlumenauense: Qual é a perspectiva de trazer empresas ou iniciativas para Blumenau, mesmo você tendo uma atuação voltada a todo o Estado?

Markus Blumenschein: Sou cidadão honorário de Blumenau. Então, por que não? Já temos a cidade-irmã Weingarten, a Oktoberfest, bandas alemãs e agora vamos ter uma Hofbräuhaus (restaurante e cervejaria) na cidade.

Há muito potencial. Temos também um rico Arquivo Histórico, com a Sueli Petry, que é mais do que diretora do patrimônio — é uma ativista da história do município. Inclusive hoje de manhã recebi um texto que ela me pediu para verificar a tradução.

OBlumenauense: Como você concilia tantas atividades?

Markus Blumenschein: Eu me organizo. Primeiro, faço o que gosto. Sempre digo: “Fique feliz por ter problemas, porque você é diretor de uma empresa e seu papel é resolver problemas”. É preciso gostar. Os desafios do dia a dia às vezes são pesados, mas a experiência ajuda a ser mais eficiente.

Tecnologia continua no centro da atividade profissional

OBlumenauense: Além da nova função institucional, você continua à frente da sua empresa de tecnologia.

Markus Blumenschein: Sim. Atuamos com SAP, projetos, suporte, consultoria e desenvolvimento, além de Microsoft e redes corporativas. Atendemos empresas alemãs e clientes alemães com filiais no mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos. Neste ano, temos um cliente na Suíça, também atendido em alemão.

Nossa área de vendas está interessada em atender clientes aqui no Brasil, em Santa Catarina e em outros estados. Já atuamos no Paraná, atendendo empresas brasileiras com o mesmo padrão de serviço que oferecemos na Alemanha e na Suíça.

O limite entre representação estadual e diplomacia

OBlumenauense: Como funciona a relação do embaixador honorário com a Embaixada da Alemanha e o Consulado-Geral em Porto Alegre? Qual é a liberdade de atuação?

Markus Blumenschein: Hoje sou representante do Estado de Santa Catarina para assuntos da Alemanha. Meus pontos de contato oficiais do lado alemão são o consulado honorário e o consulado-geral.

O Consulado-Geral, que atende Santa Catarina e Rio Grande do Sul, fica em Porto Alegre, com o cônsul-geral Marc Bogdahn. Qualquer assunto envolvendo Santa Catarina e Alemanha, entro em contato com o cônsul-geral e, às vezes, peço que ele encaminhe a questão à embaixadora Patricia Flor, em Brasília.

Essas instituições são as representantes oficiais da Alemanha. Tudo o que envolve o lado diplomático e a representação oficial é responsabilidade delas. Não posso interferir. Questões de cidadania e passaporte, por exemplo, são tratadas pelo consulado.

“Santa Catarina é minha segunda pátria”

OBlumenauense: O que representa para você morar em Blumenau, ter construído família e negócio aqui e, ao mesmo tempo, ser alemão em uma cidade marcada pela colonização alemã?

Markus Blumenschein: Morar aqui em Blumenau e em Santa Catarina é estar na minha segunda pátria. Criei raízes. Meu coração bate em duas partes: na Alemanha e no Brasil.

Vejo aqui um ótimo lugar para morar, criar uma família e atuar profissionalmente. Foi uma escolha e não penso em mudar. Todas as minhas conexões e as da minha família estão aqui. Na Alemanha, ainda estão os meus pais e minha irmã, alguns amigos e os contatos de negócios. Mas tudo tem sua base no Brasil.

Às vezes me perguntam: “Markus, como você se sente aqui?”. Respondo que os desafios relacionados à burocracia ou a outras questões são iguais para qualquer pessoa. Não estamos de visita ou de férias, onde tudo é céu azul. Blumenau tem seus desafios, como enchentes e deslizamentos, e nós vivemos aqui. É minha segunda pátria.

Quem é Markus Blumenschein

Formação

Doutorado (PhD) em Geografia Econômica e Social pela Universidade de Tübingen, entre 1996 e 1999, com estudos na mesma instituição entre 1988 e 1995. Fez intercâmbio em Geografia Humana na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com bolsa do DAAD, em 1992.

Trajetória profissional

CEO da EB-ISCO Brasil (2020–atual) — empresa de consultoria em TI e transformação digital para clientes alemães e suíços.

Head of Point of Production Brazil / Head of Telekom IT na T-Systems (2010–2020) — período em que expandiu a equipe de cerca de 150 para mais de 700 profissionais.

Business Process Manager / Project Lead na Computer Sciences Corporation (2002–2010) — com responsabilidade pela região da Europa, Oriente Médio e África a partir de 2005.

System Engineer na Nortel DASA, posteriormente DaimlerChrysler Aerospace (2000–2002).

Projetos e articulação institucional

Participou de projetos de TI para Airbus, BMW, Daimler, Porsche, Volkswagen e Linde entre 2010 e 2020. Contribuiu para a estruturação do programa Entra21, da Blusoft em parceria com a T-Systems Blumenau, que posteriormente serviu de referência para o programa estadual Geração TEC.

Presidiu a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha (AHK) de Santa Catarina entre 2014 e 2018 e coordenou o Ano Brasil-Alemanha no Estado entre 2012 e 2013, período em que foram realizados mais de 60 eventos.

Integrou o conselho consultivo do InovAmfri entre 2015 e 2020. O projeto é voltado ao planejamento e empoderamento regional voltado para o desenvolvimento econômico, social e sustentável da Região da Foz do Rio Itajaí (AMFRI), em Santa Catarina.

Reconhecimentos

Recebeu o Prêmio da Associação Alemã de Pesquisa sobre a América Latina (ADLAF), em 2001, e o título de Cidadão Honorário de Blumenau, em 2016.

Participou de um café de trabalho com a então chanceler alemã Angela Merkel durante consultas governamentais bilaterais realizadas em Brasília, em 2015.

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