Nesta quarta-feira (14/10/26), as cores que acompanharam a história da artista plástica Rosi Darius ganharam um tom mais escuro. O preto, que tantas vezes ajudou a dar forma e contraste às suas pinturas, agora simboliza a despedida de uma mulher que dedicou mais de cinco décadas à arte.

Ela faleceu aos 84 anos, deixando uma trajetória marcada pela criatividade e pela valorização das paisagens e tradições do Vale do Itajaí. O velório ocorre na Igreja Luterana Centro, em Blumenau, nesta quarta-feira das 19h às 23h. A despedida será retomada na quinta, a partir das 8h, seguindo até as 10h30, horário previsto para a cerimônia de sepultamento.

Estendemos nossos sentimentos, em especial, aos filhos Theodor, Cláudio, Larissa e Cinthia; assim como a todos que tiveram a oportunidade de conviver com uma pessoa tão única.

Uma artista completa

Rosi Maria Winkler Darius nasceu em Blumenau, em 28 de maio de 1942. Antes de encontrar na pintura uma de suas principais formas de expressão, começou pela música e pela poesia. Talvez por isso suas obras tenham transitado com tanta naturalidade entre diferentes temas: a delicadeza das flores, a arquitetura das antigas casas enxaimel, as figuras humanas e as paisagens rurais.

Nas pinturas, parte desse universo aparece em diferentes momentos. Há casas cercadas pela vegetação, caminhos de terra que parecem conduzir a lembranças de outros tempos, flores em tons suaves e personagens envolvidos pela música. Cada trabalho revela um pouco dos assuntos que despertavam seu interesse.

Rosi utilizava técnicas como giz-pastel, aquarela, óleo sobre tela e aquarela sobre tela. Estudou técnica e cor com o artista Reinaldo Manske e, a partir de 1972, começou a participar de exposições que levariam seu trabalho a diferentes cidades brasileiras e também ao exterior.

Em 1986, mudou-se para Pomerode, onde instalou seu ateliê na Rua dos Imigrantes. A cidade passou a fazer parte de sua história pessoal e artística, sem que ela perdesse os vínculos com Blumenau.

Uma carreira que ultrapassou fronteiras

Ao longo da carreira, Rosi participou de 62 exposições individuais e 145 mostras coletivas, conforme os números apresentados em seu currículo. Suas obras chegaram a países como Alemanha, Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, Argentina, Uruguai, Paraguai e África do Sul. Também ilustrou o livro Blumenau e sua História, entre outras publicações.

Sua participação na vida cultural foi além das próprias pinturas. Rosi presidiu a Associação Blumenauense de Artistas Plásticos (Bluap), integrou conselhos consultivos de instituições culturais e esteve à frente da Associação Pomerodense de Artistas Plásticos (Apap) durante dois anos.

Em 2017, recebeu a Comenda Cultural Rose Gaertner, concedida em reconhecimento aos serviços prestados à cultura blumenauense. Seu nome também consta no Indicador Catarinense de Artes Plásticas, publicado pelo Museu de Arte de Santa Catarina, e no Dicionário Artes Plásticas Brasil 1994.

Entre as premiações estão uma medalha de bronze na 1ª Mostra de Arte Contemporânea Brasileira de Lisboa, em Portugal, três primeiros lugares na Expoflores de Joinville, em 1991, 1995 e 1996, e o primeiro lugar na Bienal de Artes Plásticas Reinaldo Manske, em 1996.

Também recebeu medalhas de bronze e menções honrosas em salões de artes plásticas do Rio de Janeiro e de outras cidades brasileiras. Os reconhecimentos ajudam a contar a história de uma produção artística que ultrapassou os limites de Santa Catarina.

 

A natureza como inspiração

O desejo de morar na cidade vizinha à Blumenau, vinha da infância, quando visitou o zoológico com os pais. Ficou encantada com o lugar. Anos depois, decidiu se mudar, também porque procurava espaços onde a natureza estivesse mais presente.

A artista se identificava com os pintores impressionistas e com a arte do final do século XIX, especialmente do período conhecido como Belle Époque. Essa influência pode ser percebida nas paisagens, nas cores e na maneira como representava cenas aparentemente simples.

Uma casa antiga, um jardim florido ou uma estrada no interior podiam se transformar em temas para suas telas. Em 2010, durante a exposição Nosso Vale Europeu, em Pomerode, a artista explicou que encontrava inspiração na combinação entre a herança europeia e o ambiente tropical brasileiro.

Da sala de aula às telas: uma história que também passou pela educação

A arte não foi a única maneira encontrada por Rosi Darius para compartilhar conhecimento e sensibilidade. Ela também atuou como professora na Escola Barão do Rio Branco, em Blumenau, instituição com a qual manteve um vínculo que ultrapassou os anos de trabalho.

Rosi foi autora do hino da escola, unindo duas linguagens que fizeram parte de sua vida: a música e a poesia. Sua contribuição voltou a ser lembrada em março de 2012, durante as comemorações dos 59 anos da instituição.

Na ocasião, a escola organizou uma exposição histórica com fotografias, documentos e objetos antigos. A programação incluiu uma celebração especial com a presença da artista, reconhecida como professora e autora do hino. Em março de 2023, os quadros puderam ser novamente apreciados no espaço Alameda Haus, da Escola Barão.

As homenagens revelam uma faceta de Rosi que vai além dos quadros e das galerias. Sua história também ficou ligada à formação de estudantes e à memória de uma instituição tradicional de Blumenau.

As lembranças que permanecem

A história de Rosi Darius também passa pela família, pelos amigos e pelas pessoas que acompanharam suas exposições ao longo das décadas. Os filhos Theodor e Cláudio eram meus amigos desde a infância, na época em que a família morava em um prédio na Rua Namy Deeke, no Centro de Blumenau. Nos glamorosos tempos da TV Coligadas (hoje NSC TV) Rosi era convidada para o programa da apresentadora Valmira Siemann.

Sua trajetória permanece registrada em catálogos, premiações e, principalmente, nas próprias obras. São pinturas que guardam fragmentos da arquitetura, da natureza e da vida de uma região que tanto inspirou a artista.

Rosi Darius se despede aos 84 anos. As telas permanecem. E, nelas, as cores continuam contando histórias que o tempo não apaga.

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