Por muito tempo, falar em previdência privada significava pensar principalmente na formação de uma renda complementar para a aposentadoria. Embora essa continue sendo uma de suas principais finalidades, o produto passou a ocupar um espaço mais amplo no planejamento financeiro, podendo ser utilizado também na construção de patrimônio, organização tributária e planejamento sucessório.

Os números mostram a dimensão desse mercado. Em janeiro de 2026, a previdência privada aberta administrava R$ 1,8 trilhão em recursos no Brasil, valor 13,2% superior ao registrado no mesmo mês de 2025, segundo a Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi). O segmento reúne mais de 11 milhões de participantes.

A necessidade de planejamento de longo prazo também ganha importância diante do envelhecimento da população. Segundo o IBGE, a expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos em 2024. Para as mulheres, o indicador foi de 79,9 anos, enquanto para os homens ficou em 73,3 anos.

Com brasileiros vivendo mais, especialistas apontam que o desafio já não está apenas em alcançar a aposentadoria, mas em garantir qualidade de vida e segurança financeira durante um período cada vez maior após o encerramento da carreira profissional.

Mesmo assim, a aposentadoria ainda é um planejamento pouco antecipado entre os brasileiros. A 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, da ANBIMA, aponta que apenas 16% dos não aposentados já haviam começado a formar uma reserva específica para essa finalidade em 2025. Outros 57% ainda não haviam começado, mas pretendiam fazê-lo.

Em regiões com forte cultura empreendedora e presença significativa de empresas familiares, como o Norte de Santa Catarina, especialistas observam que o debate sobre planejamento financeiro de longo prazo tem ganhado cada vez mais espaço.

Além da preocupação com a aposentadoria, cresce o interesse por estratégias voltadas à proteção do patrimônio e à organização financeira das próximas gerações.

Para Maico Weiss, especialista em investimentos do Sicredi, a mudança está na forma como a previdência pode ser utilizada dentro de uma estratégia financeira mais ampla.

“A previdência deixou de ser apenas um instrumento de aposentadoria e passou a ser também um planejamento sucessório, patrimonial e tributário”, afirma.

Mais do que uma renda para o futuro

Um dos usos da previdência está relacionado ao planejamento sucessório. Nos planos de previdência aberta, o titular pode indicar beneficiários para receber os recursos em caso de morte. Segundo a Superintendência de Seguros Privados (Susep), os valores acumulados na fase de acumulação não integram o inventário.

Em 2024, o Supremo Tribunal Federal também decidiu que é inconstitucional a cobrança de ITCMD sobre valores de PGBL e VGBL transmitidos aos beneficiários em razão da morte do titular.

Outro aspecto é o tratamento tributário. No PGBL, as contribuições podem ser deduzidas da base de cálculo do Imposto de Renda até o limite de 12% dos rendimentos tributáveis, desde que atendidas as condições previstas na legislação. No VGBL, não há essa dedução, e o imposto incide somente sobre os rendimentos no momento do resgate ou recebimento.

Por isso, a escolha entre as modalidades depende da situação tributária e dos objetivos de cada investidor.

“A previdência também é um excelente instrumento de investimento a longo prazo, visto que os fundos de previdência não possuem come-cotas”, explica Weiss.

O chamado come-cotas é uma antecipação do Imposto de Renda cobrada periodicamente em determinados fundos de investimento. Nos planos de previdência, a tributação ocorre de acordo com o regime escolhido e no momento previsto para o resgate ou recebimento.

Disciplina e planejamento de longo prazo

A previdência também permite a portabilidade entre fundos e instituições dentro das regras do produto, sem que seja necessário resgatar os recursos. Para o especialista, essa característica pode contribuir para uma estratégia de longo prazo e para a diversificação da carteira.

“Permite aproveitar melhor o efeito dos juros compostos, pois pode fazer portabilidade de um fundo para outro sem a necessidade de efetuar o resgate”, afirma.

O crescimento do patrimônio, porém, depende de fatores como prazo, contribuições, rentabilidade, taxas e perfil de risco. Por isso, a previdência não deve ser vista isoladamente, mas como uma das ferramentas disponíveis para organizar os recursos ao longo da vida.

“Quando bem utilizada, combina acumulação de patrimônio, eficiência tributária, disciplina de longo prazo e planejamento sucessório”, finaliza Weiss.

OCP News esclarece as principais dúvidas sobre previdência privada

Para aprofundar o tema, a reportagem conversou com o especialista em investimentos do Sicredi Norte SC, Maico Weiss, que respondeu algumas das principais dúvidas sobre previdência privada.

Redação: Afinal, o que é previdência privada?

Maico Weiss: A previdência privada é uma ferramenta de planejamento financeiro de longo prazo. Embora seja muito conhecida pela sua relação com a aposentadoria, hoje ela também pode ser utilizada para diferentes objetivos patrimoniais e financeiros ao longo da vida.

Redação: O que mudou na forma como as pessoas enxergam a previdência privada?

Maico Weiss: Antigamente ela era vista quase exclusivamente como uma complementação da aposentadoria. Hoje muitas pessoas passaram a enxergá-la como uma ferramenta de planejamento financeiro, organização patrimonial e construção de patrimônio no longo prazo.

Redação: Quais são os benefícios da previdência privada?

Maico Weiss: A previdência reúne uma série de benefícios que vão além da formação de renda para o futuro. Ela pode contribuir para a construção gradual de patrimônio, oferece flexibilidade para diferentes objetivos financeiros, permite planejamento de longo prazo e, dependendo da modalidade escolhida, também pode trazer vantagens tributárias e auxiliar na organização sucessória. Por isso, tem sido cada vez mais utilizada dentro de estratégias patrimoniais mais amplas.

Redação: Quais são os benefícios tributários da previdência privada?

Maico Weiss: Os benefícios variam conforme a modalidade escolhida e o perfil do investidor. No caso do PGBL, as contribuições podem ser deduzidas da base de cálculo do Imposto de Renda, respeitando os limites previstos pela legislação para quem faz a declaração completa. Já no VGBL, a tributação incide apenas sobre os rendimentos no momento do resgate ou recebimento dos recursos. Por isso, é importante avaliar cada situação individualmente.

Redação: O que uma pessoa deve avaliar antes de contratar um plano?

Maico Weiss: É importante considerar fatores como objetivos financeiros, prazo de investimento, perfil de risco e regime tributário. A previdência deve fazer parte de uma estratégia financeira bem estruturada, alinhada ao momento de vida e às metas de cada pessoa.

Mais do que preparar a aposentadoria, a previdência privada vem sendo incorporada ao planejamento financeiro de quem busca organizar o patrimônio, planejar o futuro e construir estratégias de longo prazo. Um movimento que acompanha as mudanças no perfil dos investidores e nas formas de pensar a segurança financeira ao longo da vida.

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