Professor(a), hoje te escrevo sem a pressa de ensinar. Escrevo para reconhecer que há vidas inteiras escondidas naquele gesto quase invisível de segurar a mão de quem ainda não sabe desenhar uma letra.
Na Educação Infantil, o professor oferece nomes ao mundo. No Ensino Fundamental, desperta perguntas. No Médio, ensina que duvidar pode ser uma forma de inteligência. No Técnico, aproxima o conhecimento das mãos que transformam a realidade. Na Educação de Jovens e Adultos, repara uma injustiça: devolve a palavra a quem a vida, tantas vezes, condenou ao silêncio. E quando alguém escreve o próprio nome pela primeira vez, descobre que também tem o direito de assinar a existência.
Na universidade, ensinar é aceitar que o conhecimento não termina em quem o transmite. É formar consciências capazes de interrogar o mundo, reconhecer a complexidade humana e não confundir informação com sabedoria.
Ensino e educação se encontram, mas não se confundem. Um transmite conhecimentos; a outra participa da formação de quem somos. A família oferece os primeiros vínculos, o chão afetivo, os modos de amar. A escola amplia horizontes, exercita o pensamento e apresenta a diferença. Quando caminham juntas, ambas ajudam a formar cidadãos; quando se afastam, a criança pode ficar dividida entre o que aprende e o que testemunha.
Neste 15 de outubro, celebrar professores e professoras exige mais do que homenagens. Exige respeito, salários dignos, condições de trabalho, liberdade de ensinar, qualificação permanente e políticas públicas que compreendam a educação como prioridade, não como promessa de campanha.
Por acaso, já imaginaram se, em cada cidade deste país, os salários dos professores fossem equiparados aos dos vereadores? Ou aos dos deputados estaduais e federais? E se, além disso, nossas autoridades fossem incentivadas — quem sabe até convencidas — a matricular seus filhos nas escolas públicas?
Seria uma experiência interessante. Afinal, quando os filhos dos poderosos frequentam as mesmas escolas que os filhos dos demais segmentos sociais, a educação pública talvez deixe de ser um problema dos outros e passe a ser uma prioridade de quem decide.
Imaginem, ainda, professores tão bem remunerados quanto aqueles que legislam sobre o futuro da educação. Que ousadia! Logo os responsáveis por ensinar a ler, pensar, questionar e compreender o mundo recebendo salários à altura da importância que os discursos oficiais atribuem à educação!
Quem sabe, então, as escolas ganhassem bibliotecas, laboratórios, professores valorizados e condições dignas de aprendizagem. E os discursos em homenagem ao Dia dos Professores precisassem vir acompanhados de contracheques menos constrangedores.
Tente imaginar uma professora que trabalha três turnos por dia em cinco dias da semana, levando trabalho para casa para os sábados e domingos (!!??).
Mas cuidado: ideias assim podem ser perigosas. Afinal, se a escola pública funcionar de verdade e os professores forem respeitados, como justificar tantas promessas eleitorais repetidas a cada quatro anos?
Ironias à parte, fica a pergunta: será que a educação pública continuaria ocupando o último lugar nas prioridades nacionais se aqueles que decidem sobre ela dependessem da mesma escola que a maioria dos brasileiros?
Talvez a transformação começasse quando ensinar deixasse de ser uma profissão exaltada nos palanques e desvalorizada nos orçamentos.
Porque um país que paga tão pouco a quem ensina e tanto valoriza quem exerce o poder precisa, antes de tudo, reaprender a fazer as contas. E, sobretudo, a distinguir o preço de um mandato do valor de uma professora.
Eis por que as eleições presidenciais importam tanto. A urna não escolhe apenas governantes: também ajuda a decidir quais futuros serão possíveis. Precisamos conhecer as propostas, confrontá-las com a Constituição, examinar sua viabilidade e perguntar como cada candidatura pretende enfrentar as desigualdades, valorizar os educadores e garantir aprendizagem de qualidade.
A democracia nasce da palavra. Antes de se tornar casa, uma casa foi palavra, desenho de um desejo ainda sem paredes. Antes de ser estrada, uma estrada foi palavra, a possibilidade de chegar a algum lugar. Também o país que desejamos começa assim: uma palavra que procura o mundo para existir.
Mas há palavras que morrem no instante em que são pronunciadas e há aquelas que carregam a coragem de se transformar em realidade. Nas eleições, precisamos escutar não apenas o que os candidatos dizem, mas o mundo que suas palavras são capazes de construir. Governar é dar consequência à palavra: transformá-la em compromisso, orçamento, política pública e dignidade humana. Quando a palavra perde o vínculo com a verdade, a democracia adoece. Quando reencontra a responsabilidade, volta a ser aquilo que nunca deveria ter deixado de ser: a possibilidade de um futuro compartilhado.
O voto também educa. Revela o que valorizamos, o que toleramos e o país que desejamos legar às próximas gerações. Não basta perguntar quem promete mais. É preciso saber quem apresenta caminhos, assume responsabilidades e demonstra como pretende realizá-los.
Professor, professora: talvez o Brasil ainda não saiba escrever inteiramente o seu destino. Mas vocês continuam ensinando que nenhum futuro se constrói de olhos fechados.
Que saibamos, enfim, alfabetizar o país em si mesmo. E que cada voto seja escrito com a consciência de quem aprendeu a ler o mundo antes de tentar mudá-lo.
