Ontem foi o Dia das Crianças. Hoje, talvez devêssemos perguntar aos candidatos à Presidência: que Brasil estamos preparando para aquelas que, daqui a trinta anos, estarão governando, pesquisando, criando e tentando compreender o mundo que lhes deixaremos?

Uma criança é a pergunta silenciosa que o futuro dirige ao presente. Não basta oferecer-lhe o brinquedo de um dia, a fotografia de uma campanha ou a promessa pronunciada diante das câmeras; é preciso assegurar-lhe o direito de sonhar ao longo de toda a vida. E sonho sem educação corre o risco de transformar-se em promessa esquecida nas gavetas da política.

A Constituição de 1988 não é ornamento institucional nem moldura solene na parede do Estado. É pacto vivo com a dignidade humana, a cidadania e a educação como direito de todos e dever compartilhado pelo poder público, pela família e pela sociedade. Por isso, quem deseja governar o Brasil por quatro anos precisa apresentar mais do que slogans: um diagnóstico honesto do país, metas verificáveis, prazos definidos, indicadores públicos e a origem dos recursos necessários para cumprir o que promete.

A educação precisa ser compreendida como formação da consciência, construção da autonomia e exercício cotidiano da democracia. A escola pública deve constituir-se como espaço de igualdade, pertencimento e participação, não como depósito de crianças nem como mecanismo de reprodução das desigualdades. O conhecimento não é uma mercadoria que se transfere intacta de uma mente para outra: nasce da curiosidade, da linguagem, da experiência, da investigação e das relações que permitem à criança interpretar e reinventar o mundo.

Aprender é um processo vivo. Cada estudante chega à escola trazendo uma história, uma sensibilidade, uma maneira singular de observar e organizar a realidade. Ensinar, portanto, não é preencher vazios, mas criar condições para que novas compreensões emerjam. É religar saberes fragmentados, aproximar ciência e cultura, razão e imaginação, indivíduo e comunidade. É reconhecer que ninguém se forma sozinho e que toda aprendizagem se realiza em redes de convivência, cuidado, diálogo e responsabilidade.

O que fazer nos próximos quatro anos? Alfabetizar todas as crianças na idade adequada; recuperar aprendizagens interrompidas; valorizar professores com formação continuada, carreira respeitada e remuneração digna; ampliar a educação integral; universalizar o acesso à internet de qualidade; fortalecer o ensino técnico, científico e profissional; aproximar universidades, escolas e centros de pesquisa. E ensinar a conviver com a inteligência artificial sem entregar às máquinas aquilo que há de mais humano: a capacidade de pensar, duvidar, imaginar, discernir e criar.

A primeira infância deve ocupar o centro dessa agenda. O economista James Heckman, laureado com o Prêmio Nobel, demonstrou que os investimentos realizados nos primeiros anos de vida produzem retornos sociais e econômicos superiores, porque fortalecem competências cognitivas, emocionais e relacionais que sustentam toda a trajetória escolar e profissional. Cuidar da criança pequena não é despesa assistencial: é estratégia de desenvolvimento. Cada recurso destinado à nutrição, à saúde, à proteção, à creche de qualidade e à interação familiar pode reduzir desigualdades futuras, ampliar a produtividade, diminuir a evasão escolar e fortalecer a economia do país. A riqueza de uma nação começa antes da sala de aula formal, no território em que a criança é acolhida, escutada e estimulada a florescer.

Tudo isso exige orçamento transparente, avaliação permanente e prioridades claras: eficiência nos gastos, revisão de desperdícios, combate à corrupção e financiamento educacional sustentável, respeitando as vinculações constitucionais e a responsabilidade fiscal. Exige também continuidade administrativa, cooperação entre União, estados e municípios e políticas que não sejam abandonadas a cada mudança de governo.

Educação não produz milagres em quatro anos. Mas pode iniciar transformações cujos frutos amadurecerão por trinta. O desenvolvimento econômico depende de conhecimento; o cultural, de imaginação; o social, de oportunidades; o humano, da possibilidade de cada pessoa florescer sem que sua origem determine o limite de seu destino.

Nas eleições, não perguntemos apenas quem vencerá. Perguntemos quais crianças terão mais oportunidades quando os vencedores já tiverem deixado o poder. Perguntemos quais vidas serão protegidas, quais talentos serão despertados e quais desigualdades deixarão de ser tratadas como fatalidade.

Porque governar é, também, assumir responsabilidade por aqueles que ainda não podem votar, mas já carregam, em sua existência, o futuro inteiro do país.

E talvez a medida mais verdadeira de um presidente seja esta: o Brasil que ele deixa para quem ainda está aprendendo a ler o mundo.