Na sexta-feira dois homens falaram ao país. Diante da televisão, procurei uma terceira voz: a de quem já não suporta escutar.
As promessas atravessavam a sala. Algumas tinham o brilho das coisas novas; outras, a maçaneta gasta de tantas portas que nunca se abriram. Pensei em você, que desligou o aparelho. Em você, que anulou o voto, votou em branco ou não foi às urnas.
Quase quarenta milhões de brasileiros. Escrevo o número e preciso parar. Há multidões que a aritmética consegue somar, mas não consegue conhecer. Dentro de cada ausência existe uma história: doença, distância, desalento, revolta. Seria cruel chamar tudo isso de indiferença. Às vezes, desistir é o último nome que damos ao cansaço.
Mas o país continua acontecendo enquanto descansamos dele.
A cadeira fica vazia; alguém se senta. A decisão chega depois, entra sem bater, alcança a cozinha, o preço do pão, a escola do filho, a espera por atendimento. Aquilo que parecia longe aprende depressa o caminho da nossa casa.
Sei: há quem deixe o voto em branco porque nenhuma promessa merece sua letra. Compreendo esse pudor. Também eu gostaria de escolher sem ferir nenhuma esperança. Mas a vida nos pede decisões antes de nos oferecer certezas.
Na urna, podemos fazer uma coisa rara: escolher quem terá poder sobre nós e guardar inteiro o direito de cobrar, discordar, resistir. Um voto não é uma procuração sobre a nossa consciência.
Penso na mão que confirma. Tão pequena diante do Brasil. A mesma mão que segura uma sacola, ampara um rosto, procura no bolso o dinheiro contado. Durante alguns segundos, essa mão alcança o que parecia inalcançável: participa da direção de um país.
Sozinha, não decide tudo. Reunida a milhões de outras, pode mudar o rumo.
Aos que ficaram de fora, escrevo como quem deixa uma luz acesa. Ainda há lugar para a sua escolha. Leve consigo a dúvida, as exigências, a memória do que fizeram e do que deixaram de fazer. Examine o que cada candidatura oferece à vida comum e à democracia.
Amanhã, antes de sair, talvez você se pergunte se fará diferença.
Lembre-se: a multidão também começa em alguém que abre a porta.
Sugestão cordial: O que lhe parece ir às urnas? Há um Brasil que ainda pode receber a marca da sua mão.
