“♫ Then if you got it you don’t want it/ Seems to be the rule of thumb/ Don’t be tricked by what you see/ You got two ways to go/ I’ll say it again in the land of the free/ Use your freedom of choice/ Freedom of choice” (Freedom of choice; Devo)

Tem ainda quem lembre das campanhas eleitorais disputando a atenção dos eleitores apenas com comícios, debates e propaganda na TV e no rádio. As redes sociais modificaram profundamente essa dinâmica, permitindo que mensagens políticas circulem permanentemente, com microdirecionamento para públicos específicos. O impacto é forte!

Nos Estados Unidos, as eleições presidenciais vêm demonstrando a crescente importância desse ambiente. Nas últimas três eleições lá, a circulação de informações falsas e as disputas sobre a legitimidade do resultado dominaram parte das discussões digitais, assim como influenciadores, vídeos curtos e conteúdos produzidos com inteligência artificial ampliaram as possibilidades de comunicação e manipulação política.

No Brasil, a transformação ficou particularmente evidente nas eleições de 2018, quando o WhatsApp ganhou protagonismo. Informações verdadeiras misturavam-se com opiniões, boatos e conteúdos deliberadamente falsos passando pelos mesmos grupos de família e de amigos, frequentemente recebendo a credibilidade de quem os encaminhava.

Em 2022, o fenômeno ganhou novas dimensões. Instagram, YouTube, TikTok, Twitter e aplicativos de mensagens passaram a integrar um ambiente de campanha praticamente ininterrupto. A polarização favoreceu conteúdos que despertavam indignação, medo e entusiasmo, sentimentos que estimulam comentários e compartilhamentos.

Um novo (nem tão novo) protagonista

É justamente nesse ponto que os algoritmos assumem um papel importante. As plataformas selecionam o conteúdo apresentado a cada usuário com base em seus sinais de comportamento. Assim, pessoas que vivem na mesma cidade, trabalham juntas ou são da mesma família podem receber versões diferentes dos acontecimentos políticos.

Essa personalização contribui para a formação de ambientes informativos nos quais determinadas opiniões aparecem repetidamente, enquanto outras recebem pouca exposição. É a BOLHA! Com o tempo, o eleitor pode desenvolver a impressão de que suas convicções são amplamente compartilhadas pela sociedade, mesmo quando representam apenas uma parcela dela.

Isso não significa que os algoritmos determinem automaticamente o resultado de uma eleição. As decisões eleitorais envolvem economia, valores, experiências pessoais e inúmeros outros fatores. Entretanto, está ficando cada vez mais evidente que as plataformas influenciam o ambiente no qual essas decisões são formadas.

Outro (mais) novo protagonista

Em 2026, essa influência ganhou um componente adicional. A inteligência artificial tornou mais simples produzir imagens e vídeos aparentemente autênticos. O primeiro turno brasileiro registrou a circulação de conteúdos eleitorais sintéticos, com uso desta tecnologia, apesar das limitações impostas pelo TSE.

Para o segundo turno, a tendência é de uma disputa digital ainda mais intensa, com mensagens direcionadas a grupos específicos, atuação de influenciadores e conteúdos preparados para circular rapidamente entre diferentes plataformas. Também cresce o risco de materiais enganosos alcançarem milhões de pessoas antes que sua autenticidade seja verificada. E isso vai acontecer em ambos os lados da disputa.

A democracia depende de eleitores capazes de conhecer propostas, avaliar argumentos e formar opiniões. Quando parte significativa das informações recebida é selecionada por sistemas cujo funcionamento não são totalmente conhecidos, torna-se necessário discutir a responsabilidade das plataformas na construção do debate público.

Nas próximas eleições, compreender os algoritmos será tão importante quanto entender as propostas dos candidatos, pois a maneira como a informação chega ao eleitor já se tornou parte fundamental do processo eleitoral.

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