As eleições se aproximam e, com elas, vemos um fenômeno cada vez mais cristalino: o santinho de papel vai perdendo espaço para os pixels do ciberespaço. Basta observar as ruas nesta reta final de campanha para notar o esvaziamento das antigas tradições partidárias, pois os comícios, os bandeiraços, as carreatas, as panfletagens e os comitês de bairro dão lugar a produções de estúdio, agências de marketing político e algoritmos de impulsionamento cirúrgico. No século XXI, o ciberespaço democratizou o acesso à informação, mas também transformou o pleito em um mercado de atenção.
Nesse ecossistema digital, prospera a figura do autoproclamado outsider, o forasteiro que se apresenta como antídoto ao sistema e arauto da renovação. No entanto, o que a Sociologia Política contemporânea nos revela é um paradoxo: a grande maioria desses pretensos antissistemas não passa de um produto do próprio sistema em que está inserido.
Se antes os meios de comunicação tradicionais moldavam sozinhos a percepção do eleitor, hoje os influenciadores digitais completam a equação. Assistimos a um movimento bidirecional perigoso: militantes e figuras públicas que migram do entretenimento digital para a urna, e políticos que abandonam a articulação institucional para se tornarem meros geradores de conteúdo. O método é sempre o mesmo, fundamentado na simplificação algorítmica de problemas complexos. Questões estruturais, a exemplo da financeirização da economia, da segurança pública ou do déficit habitacional, reduzem-se a slogans de trinta segundos, embalados pelo senso comum e por um discurso raso que promete soluções mágicas.
Esse fenômeno, inicialmente explorado com maestria pela extrema direita, hoje capilariza-se por todo o espectro ideológico. Quando o influenciador se torna político, sua prioridade ontológica deixa de ser a gestão da res publica (a coisa pública) e passa a ser a gestão da própria imagem. Trata-se de um agente que consome mais tempo validando sua persona digital do que estudando o impacto orçamentário de uma emenda parlamentar ou construindo articulações políticas para que os recursos impactem diretamente a vida da população.
O resultado prático é preocupante. Munido de códigos simbólicos que simulam proximidade e autenticidade, o candidato midiático entrega um mandato esvaziado de substância técnica. Desprovido de vocação para o debate legislativo, para a vida pública ou para a captação de recursos estruturais, ele vive da rentabilidade da própria projeção. Na tribuna, atua como um espectador de si mesmo, guiado não pelo interesse coletivo, mas pelo cálculo de engajamento ditado por ele e pela sua assessoria. Deixa de lado a profundidade de um debate técnico sobre a matéria para priorizar o corte em vídeo que busca desqualificar o adversário.
Como bem demonstrou a história política recente, a exemplo de Fernando Collor de Mello, o marketing político adquiriu a plasticidade necessária para maquiar qualquer perfil e transformar um candidato despreparado em um bom moço. No ciberespaço, contudo, o perigo democratizou-se: já não é preciso dispor de fundos milionários para construir uma fachada sensacionalista, bastando dominar a gramática do espetáculo.
Por isso, diante das urnas, a exigência democrática recai sobre o discernimento crítico do eleitor. É fundamental ultrapassar a barreira da estética digital, investigar o histórico de votações, esmiuçar os projetos de lei apresentados e desconfiar de vaidades infladas por métricas de engajamento. É perfeitamente possível diferenciar os candidatos movidos por modismos daqueles que estruturam seu posicionamento político a partir do conhecimento adquirido ao longo da vida. Afinal, a sociedade não sobrevive de curtidas, mas de escolhas conscientes que irão influenciar diretamente a vida de todos.
Kayuã Girardi, Cientista Social (FURB), Mestre em Desenvolvimento Regional (PPGDR/FURB) e doutorando em Geografia (PPGG/UFSC)

