Prometem revolução, mobilizam os jovens e pregam igualdade. Mas, na hora de dividir o poder, a velha política mostra sua verdadeira face.
A política mudou o figurino, atualizou o discurso e aprendeu a falar a língua da juventude. Agora, diversidade, inclusão e justiça social também servem para construir carreiras. Mas basta olhar para cima do carro de som: as mesmas caras, os mesmos trejeitos e a mesma sede de poder. Mudou o discurso; o dono do microfone continua o mesmo.
Essa juventude entra com esperança, trabalha na campanha e carrega as bandeiras. O político sobe no palanque e conquista o mandato. Depois, o discurso coletivo dá lugar ao projeto individual. A revolução é prometida para todos, mas o poder continua reservado a poucos.
Direita e esquerda têm diferenças, mas o oportunismo não tem lado exclusivo. Há quem pregue igualdade sem dividir privilégios e quem prometa renovação sem abrir espaço para ninguém. Para o povo, migalhas anunciadas como grandes conquistas; para certas lideranças, mais cargos, influência e poder.
E a pergunta incômoda permanece: por que tantos projetos de renovação continuam protagonizados por pessoas brancas que já circulam nos espaços de poder? Em um país marcado pelo racismo e pela desigualdade, colocar jovens negros e periféricos na propaganda não é dividir poder. É, muitas vezes, apenas mudar a fotografia.
A juventude carrega as bandeiras; os mesmos de sempre ficam com o microfone.
No fim, talvez não queiram mudar o sistema. Queiram apenas ocupar o melhor lugar nele. Enquanto os jovens empurram o carro de som, os políticos seguem no alto, prometendo uma revolução — desde que ninguém lhes peça para descer e dividir o poder.
Marco Antônio André, advogado e ativista de Direitos Humanos

