Os números das eleições de 2026 deveriam provocar uma reflexão séria em Blumenau, Júlia Zanatta, cuja principal base política está em Criciúma, recebeu 34.565 votos dos blumenauenses e foi a candidata a deputada federal mais votada na cidade, Jair Renan, igualmente sem uma trajetória política vinculada a Blumenau, recebeu outros 7.327 votos. Na disputa estadual, Ana Campagnolo recebeu 24.068 votos em Blumenau, superando todos os candidatos locais ao cargo.
Somente esses três nomes receberam quase 66 mil votos em Blumenau, o dado é ainda mais significativo quando observamos que candidatos com domicílio eleitoral na cidade ficaram pelo caminho.
Para deputado federal, João Paulo Kleinübing recebeu 21.683 votos em Blumenau, Gilson Marques, 21.503, Egídio Beckhauser, 8.804, Ismael dos Santos, 8.286, Maria Regina Soar, 7.653, e Cristiane Loureiro, 6.241. Nenhum deles foi eleito.
É legítimo votar em qualquer candidato, independentemente de sua cidade, mas também é legítimo perguntar qual é o custo político dessa escolha, deputados federais e estaduais não servem apenas para participar de debates ideológicos, são eles que apresentam emendas, articulam recursos, pressionam governos, defendem obras e representam politicamente suas bases em Brasília e Florianópolis.
Quando Blumenau transfere dezenas de milhares de votos para candidatos vinculados a outras regiões, fortalece a representação política dessas regiões e enfraquece a sua própria capacidade de reivindicação.
Por isso, é preciso mudar também o endereço das cobranças, se amanhã faltarem recursos para hospitais, saúde, infraestrutura, mobilidade, prevenção de enchentes ou grandes obras estruturantes, não será coerente concentrar toda a indignação no prefeito e nos vereadores. Eles devem ser cobrados pelo que está dentro de suas competências, evidentemente, mas há recursos que dependem diretamente da União, do Estado e da articulação parlamentar. Nesses casos, o blumenauense também deve cobrar os deputados de outras regiões que ajudou a eleger.
O resultado de 2026 revela ainda outro problema: para uma parcela expressiva do eleitorado, aparentemente, a identificação ideológica pesou mais do que a representação regional. O voto ideológico é legítimo, mas tem consequências práticas, deputados eleitos possuem bases políticas, compromissos regionais e municípios nos quais construíram suas trajetórias, não é razoável fortalecer eleitoralmente representantes de outras regiões e depois esperar que Blumenau seja necessariamente prioridade na disputa por recursos escassos.
Blumenau é uma das principais cidades de Santa Catarina, sua força econômica e populacional deveria encontrar correspondência na sua representação política. O eleitor não precisa abandonar suas convicções, mas precisa compreender que eleição parlamentar também é uma disputa por representação, influência e recursos.
Portanto, quando vier a próxima cobrança por dinheiro estadual ou federal, antes de perguntar apenas “onde está o prefeito?” ou “onde estão os vereadores?”, o blumenauense deveria acrescentar uma terceira pergunta: onde estão os deputados que receberam milhares de votos de Blumenau?
Emerson dos Santos Magalhães, advogado

