Existe uma pergunta que a esquerda precisa parar de fazer depois de cada eleição: “Como essas pessoas conseguem votar nisso?” É uma pergunta confortável porque parte da premissa de que nós compreendemos a realidade e o outro está alienado; nós enxergamos, eles não; nós sabemos o que seria melhor para o país e eles, por alguma razão, ainda não perceberam. Mas as urnas deveriam nos obrigar a abandonar essa certeza. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula, enquanto o PL ampliou sua força política nos estados. Isso não é um acidente estatístico, nem pode ser explicado apenas por algoritmos, fake news ou manipulação das redes sociais. Existe uma parcela expressiva da sociedade brasileira que está fazendo escolhas políticas diferentes das que parte da esquerda considera naturais.

Talvez o primeiro erro esteja justamente em acreditar que o eleitor vota apenas a partir daquilo que nós consideramos racional. Ele vota com a história que carrega, com aquilo que teme, com aquilo em que acredita, com a igreja que frequenta, com a família, com a experiência que teve com o Estado, com a sensação de segurança ou insegurança, com o salário que recebe, com o preço da comida, com o desejo de prosperar e também com ressentimentos que muitas vezes a política tradicional sequer conseguiu compreender. Vota, ainda, com esperança. Esse eleitor não cabe nas categorias prontas que frequentemente usamos para tentar decifrá-lo. E talvez uma das maiores dificuldades da esquerda contemporânea seja justamente aceitar que as pessoas são muito mais complexas do que os nossos diagnósticos políticos.

O Brasil é um país majoritariamente preto e pardo. Isso, entretanto, não transforma automaticamente essa população em eleitores de esquerda. Raça não determina voto, assim como classe social não determina voto. Ser trabalhador não significa construir a própria identidade política exclusivamente a partir da relação entre patrão e empregado. Uma pessoa pode defender direitos trabalhistas, utilizar o SUS, receber uma política social do Estado e, ainda assim, votar na direita. Pode ser negra, pobre, trabalhadora e profundamente conservadora nos costumes. Pode defender a presença do Estado na economia e, ao mesmo tempo, rejeitar pautas progressistas em questões comportamentais. A contradição não está necessariamente no eleitor. Talvez esteja na nossa expectativa de que ele deveria organizar suas escolhas políticas de acordo com a lógica que nós consideramos coerente.

É nesse ponto que precisamos falar também sobre os evangélicos. Combater o fundamentalismo religioso, a intolerância e a utilização política da fé é necessário e continuará sendo. Mas transformar milhões de brasileiros evangélicos em uma caricatura de ignorância, atraso ou manipulação é um erro político gigantesco. Fundamentalismo não é sinônimo de ser evangélico. E quando tratamos todo evangélico como adversário, acabamos entregando essas pessoas justamente para quem está disposto a ouvi-las. A direita compreendeu algo que uma parte da esquerda demorou demais para perceber: política também se constrói por comunidade, identidade e afeto. A igreja está no bairro, na periferia, no domingo e durante a semana. Está presente quando falta dinheiro, quando alguém perde o emprego, quando um casamento termina, quando um filho enfrenta problemas ou quando alguém simplesmente precisa pertencer a algum lugar. Enquanto parte da esquerda discutia os evangélicos, a igreja estava conversando com eles.

Talvez seja por isso que a pergunta mais incômoda não seja “por que essas pessoas votam na direita?”, mas “quando foi que deixamos de falar com essas pessoas?” Em algum momento, nossa linguagem passou a funcionar perfeitamente dentro das nossas próprias bolhas, mas deixou de funcionar na fila do ônibus, no salão de beleza, no bar, na igreja, no comércio e na periferia. Passamos a falar muito sobre o povo, mas talvez tenhamos diminuído nossa capacidade de falar com o povo. E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. O trabalhador quer discutir salário, comida, segurança, emprego, escola, saúde, fé, família, futuro e dignidade. Tudo ao mesmo tempo. Ele não organiza a própria vida em caixinhas ideológicas. Não acorda pela manhã pensando que hoje será progressista na economia, conservador nos costumes e liberal na segurança pública. Ele simplesmente tenta viver.

É preciso reconhecer também que a direita aprendeu a transformar sentimentos em linguagem política. Medo, segurança, fé, pertencimento, família e identidade passaram a ser elementos centrais de uma narrativa que consegue conversar com parcelas importantes da sociedade. Isso não significa que essa narrativa seja necessariamente correta, nem que devamos reproduzi-la. Significa apenas que não podemos ignorar sua capacidade de produzir identificação. Uma política pública pode melhorar objetivamente a vida de milhões de pessoas e, ainda assim, não produzir identificação política com quem foi beneficiado. Essa é uma realidade que a esquerda precisa compreender, porque governar bem e construir vínculo político são coisas relacionadas, mas não são exatamente a mesma coisa.

Há ainda outro número que deveria provocar reflexão. Abstenções, votos brancos e nulos representam uma parcela gigantesca do eleitorado brasileiro. Não podemos transformar essas pessoas em um bloco político, porque são histórias, razões e escolhas completamente diferentes. Mas existe ali um sinal importante: há milhões de brasileiros que, naquele momento, não encontraram em nenhuma candidatura uma razão suficientemente forte para participar daquela disputa. Em vez de simplesmente chamá-los de alienados, desinteressados ou irresponsáveis, talvez devêssemos perguntar por que uma parcela tão grande do país não se sente representada.

Isso não significa que a esquerda precise deixar de ser esquerda. Não significa abandonar direitos humanos, políticas sociais, igualdade racial, defesa dos trabalhadores, combate ao racismo, liberdade religiosa ou qualquer outra bandeira histórica. Significa compreender que defender uma boa política pública não basta. É preciso explicar por que ela melhora a vida de alguém. É preciso traduzir ideias complexas para problemas concretos e voltar a disputar essas ideias no mundo real. O trabalhador não quer apenas saber que determinado governo aumentou ou reduziu um indicador; ele quer saber se terá emprego, se conseguirá colocar comida na mesa, se seu filho estará seguro, se poderá pagar as contas e se terá alguma perspectiva de futuro.

Talvez o grande desafio da esquerda não seja mudar aquilo que defende, mas mudar a maneira como conversa com quem precisa ser convencido. Não se trata de copiar a direita, abandonar convicções ou esconder posições para ganhar votos. Trata-se de reconhecer que ninguém é obrigado a votar em nós simplesmente porque acreditamos defender políticas melhores. Democracia não funciona assim. Se queremos disputar corações e mentes, precisamos abandonar a arrogância de imaginar que todo eleitor que discorda de nós não entendeu. Talvez ele tenha entendido. Talvez apenas tenha escolhido outra prioridade. Talvez tenha medo de outra coisa. Talvez esteja decepcionado. Talvez esteja procurando outro sentido. Talvez esteja procurando alguém que fale com ele, e não alguém que fale sobre ele.

A eleição pode terminar com a vitória de qualquer lado. Mas existe uma discussão que deveria sobreviver ao resultado das urnas. A esquerda precisa voltar a ouvir antes de tentar convencer. Precisa compreender que o eleitor não é uma planilha de renda, raça, escolaridade ou religião. É uma pessoa atravessada por experiências, afetos, medos, desejos, crenças e contradições. E enquanto continuarmos perguntando “como eles conseguem votar nisso?”, estaremos olhando para o eleitor de cima para baixo. Talvez a pergunta correta seja outra: por que aquilo que defendemos deixou de fazer sentido para tanta gente?

Essa pergunta dói mais. Mas talvez seja justamente a pergunta que precisamos ter coragem de fazer.

Marco Antônio André, advogado e ativista de Direitos Humanos