Tem resposta que não deveria depender de likes.

Escrevo este texto como pessoa física.

Como cidadã, trabalhadora do serviço público e alguém eleita pela população para atuar em defesa de crianças e adolescentes e de suas famílias, buscando garantir direitos, fortalecer políticas públicas e contribuir para uma rede de proteção que efetivamente funcione.

Faço questão de começar assim porque não escrevo em nome do colegiado do Conselho Tutelar. Escrevo em meu nome.

Também gostaria que este texto não precisasse ser escrito agora. Estamos às vésperas de eleições e sei que, mesmo não se tratando de eleições municipais, qualquer crítica pode rapidamente ser interpretada a partir de uma lente eleitoral, partidária ou de oposição.

Mas o que aconteceu na última semana me fez perceber que não há mais espaço para esperar. Ou, melhor dizendo: o tempo da espera, dos pedidos e do desgaste interno já passou.

E não foi por falta de tentativa.

Meus colegas são testemunhas das inúmeras vezes em que buscamos diálogo, fizemos solicitações, relatamos problemas e aguardamos soluções. Por isso, incomoda que seja necessário recorrer à exposição pública para chamar a atenção do Poder Público para algo que já é sua responsabilidade.

Dias atrás, assisti ao vídeo muito bem elaborado e produzido de uma empresária da cidade chamando o prefeito para conversar sobre os problemas da rua onde está localizado seu estabelecimento.

O vídeo repercutiu. O prefeito foi até lá, conversou e anunciou encaminhamentos.

Não questiono a legitimidade daquela reivindicação. Pelo contrário, todo cidadão tem o direito de cobrar respostas do Poder Público.

O que me inquieta é outra coisa: que mensagem transmitimos quando parece que a capacidade de ser ouvido pelo Poder Público depende da repercussão de um vídeo?

Não podemos naturalizar uma administração pública em que a mobilização nas redes sociais pareça ter mais força do que ofícios, reuniões, relatórios e solicitações institucionais. Porque, enquanto determinados problemas chegam rapidamente às telas, outros continuam longe das câmeras: nas unidades básicas de saúde, nas sedes dos serviços públicos, nas filas das políticas públicas e na vida das famílias que esperam por respostas.

Quando fui eleita conselheira tutelar, assumi um compromisso: fazer jus ao Estatuto da Criança e do Adolescente em sua integralidade.

Hoje, ocupando uma das 15 cadeiras dos Conselhos Tutelares de Blumenau, reafirmo aquilo que já dizia antes de assumir: o Conselho Tutelar é um órgão fundamental para a garantia dos direitos de crianças e adolescentes.

E é justamente por acreditar no serviço público que preciso falar sobre as condições em que esse serviço está sendo prestado.

Lembrando, não estou em um vídeo bem produzido.

Mas quem procura diariamente o Conselho Tutelar II de Blumenau tem sido testemunha das condições da nossa sede. Na última sexta-feira, 18 de setembro, encontramos o Conselho Tutelar II praticamente debaixo d’água. Uma de nossas conselheiras chegou por volta das 6h30 e encontrou aproximadamente dez centímetros de água espalhados pelo imóvel. Computadores, impressora, telefone, documentos, arquivos, móveis e materiais de expediente foram atingidos. A água chegou às instalações elétricas. O mofo, que não surgiu naquela sexta-feira e já vinha sendo objeto de reclamações, piorou. O piso, que também já apresentava problemas, passou a se desprender ainda mais.

E existe uma contradição nisso tudo que me acompanha há bastante tempo. Nós, conselheiros tutelares, somos chamados cotidianamente a orientar e, quando necessário, cobrar famílias. Falamos sobre higiene, condições adequadas de moradia, proteção e ambientes seguros para crianças.

Mas como fazer isso sem constrangimento quando a própria família chega ao órgão responsável pela defesa dos direitos de seus filhos e encontra paredes tomadas pela umidade, mofo chegando ao teto, piso se desfazendo e uma estrutura que não oferece sequer o acolhimento que defendemos para elas?

Não se trata de luxo. Trata-se de dignidade no atendimento público.

Estamos falando de crianças que entram por aquela porta. De adolescentes que precisam ser ouvidos. De mães, pais e responsáveis que muitas vezes chegam ao Conselho Tutelar em alguns dos momentos mais difíceis de suas vidas.

E, diante disso, há uma pergunta que precisa ser feita. Na mesma semana em que nossa sede ficou debaixo d’água, a Câmara Municipal aprovou, em segunda votação, um projeto do Poder Executivo que autoriza a alienação, por meio de leilão, de imóveis públicos que a própria administração afirma não serem utilizados para finalidades institucionais. Como explicar que o Município considere imóveis públicos sem utilização institucional enquanto um serviço essencial permanece funcionando em um espaço com mofo, infiltrações, goteiras, piso comprometido e problemas elétricos?

Se esses imóveis não são adequados para receber serviços públicos, que isso seja explicado. Se existem impedimentos, que sejam apresentados.

O que não é possível é aceitar indefinidamente a justificativa de falta de espaço enquanto um órgão responsável pela proteção de crianças e adolescentes funciona nessas condições. Isso também é gestão. Isso também é definição de prioridade.

Lembrando, não estou em um vídeo bem produzido.

Estou há quase quatro anos como conselheira tutelar e, nesse período, presenciei inúmeros pedidos para que o prefeito conhecesse mais de perto a realidade dos Conselhos Tutelares, conversasse com os conselheiros e compreendesse nossas demandas. Até hoje, não presenciei uma visita do prefeito à nossa sede.

Então fica o convite e também a cobrança: Venha conhecer o Conselho Tutelar II.

Entre nas salas onde atendemos. Veja onde nossas crianças são recebidas. Observe onde precisamos garantir sigilo. Sinta o cheiro de umidade. Olhe para o piso. Veja as marcas deixadas pela água. Converse com os trabalhadores e, principalmente, pense nas famílias que entram ali todos os dias. Porque elas merecem mais.

Quem chega ao Conselho Tutelar muitas vezes já chega fragilizado. Por trás daquela porta existem histórias de violência, abandono, conflitos familiares, evasão escolar, violações de direitos, sofrimento e medo. Essas pessoas merecem um ambiente digno, seguro, salubre e acolhedor. Nossos trabalhadores também. E nossas crianças e adolescentes, sobretudo.

Não escrevo porque acredito que uma postagem em rede social seja o caminho ideal para resolver problemas administrativos.

Escrevo justamente porque gostaria que ela não precisasse ser o caminho. O serviço público não deveria precisar disputar algoritmo para ser ouvido pelo próprio Poder Público.

E as crianças e adolescentes precisam que aquilo que está escrito há mais de três décadas no Estatuto da Criança e do Adolescente seja, diariamente, transformado em prioridade.

Talvez este texto não viralize. Talvez não gere um vídeo de resposta.

Mas espero que chegue a quem tem o poder e a responsabilidade de resolver. Porque defender crianças e adolescentes também é defender os serviços públicos que existem para protegê-los.

E isso não deveria depender de likes.

Camila Gonzaga, ativista dos Direitos Humanos, formada em Serviço Social e conselheira tutelar em exercício