Tudo começou com um trabalho de escola, uma caixa de fotografias antigas e a curiosidade de um adolescente de 14 anos em saber de onde sua família vinha. Vinte e cinco anos depois, Felipe Kuhn Braun acumula números que dão uma ideia do tamanho dessa investigação: são 52,2 mil fotografias antigas, 400 mil nomes catalogados e 1.050 famílias visitadas.
O pesquisador, escritor e presidente da Federação dos Centros de Cultura Alemã do Brasil (FECCAB) esteve em Blumenau para uma palestra no Centro Cultural 25 de Julho. No início da noite da última quarta-feira (23/09/26), um dia antes do encontro, conversamos com ele no Hotel Glória. E alguns dos assuntos que surgiram mostram que a história da imigração vai muito além das datas, sobrenomes e árvores genealógicas.
Um exemplo são as “noivas de preto”. Ao visitar famílias, Felipe começou a encontrar fotografias de mulheres que haviam se casado usando vestidos escuros. Uma foto apareceu, depois outra, até que o acervo chegou a cerca de 250 registros. Segundo ele, o preto estava ligado à formalidade e também tinha uma vantagem bastante prática: o tecido podia continuar sendo usado depois do casamento. A pesquisa acabou virando livro.
Outro costume pode causar estranhamento hoje: fotografar pessoas depois da morte. Felipe já reuniu mais de uma centena desses registros. Em muitas famílias de imigrantes, aquela poderia ser a última imagem enviada a um irmão ou parente que havia seguido para outra região — ou permanecido na Europa. Em um tempo sem telefone e com viagens que separavam famílias para sempre, a fotografia ganhava outro significado.
A conversa também passa pelos diferentes dialetos trazidos pelos imigrantes. Hunsrückisch, pomerano, Platt, vestfaliano, boêmio e outras variantes conviveram no Sul do Brasil. Em alguns lugares, as diferenças eram tantas que os próprios imigrantes tinham dificuldade para se entender. Felipe conta até o caso de uma comunidade que ganhou o nome de Babilônia justamente por essa mistura linguística.
Ao mesmo tempo, ele vê o idioma como um dos elos que mais vêm desaparecendo entre as novas gerações. O próprio pesquisador cresceu ouvindo dialeto em casa, mas precisou estudar alemão formalmente depois. Para ele, escolas, famílias, grupos culturais e entidades têm papel importante para que esse contato não desapareça completamente.
Blumenau também aparece diretamente nas pesquisas. Felipe estuda famílias luxemburguesas que se estabeleceram na região e chama atenção para aspectos duros encontrados nos documentos antigos, como famílias numerosas, mortalidade infantil elevada e mulheres que morriam após o parto. São registros que ajudam a enxergar de outra maneira a vida dos primeiros moradores das colônias.
Hoje, além das pesquisas e dos livros, Felipe preside a FECCAB, que, segundo ele, reúne 154 associados em sete estados brasileiros. A entidade busca aproximar centros culturais, pesquisadores e pessoas interessadas na preservação da cultura de origem alemã.
Esses são apenas alguns trechos de uma conversa que passou por viagens à Alemanha, cartas deixadas por imigrantes, fotografias raras, costumes de casamento e luto, genealogia e histórias descobertas dentro das casas de famílias.
No vídeo, Felipe Kuhn Braun conta como cada descoberta levou a outra e explica por que documentos aparentemente simples — uma fotografia, uma carta ou um sobrenome — podem guardar pedaços inteiros da história de uma família. Assista à entrevista completa.
O post Pesquisador reúne 52 mil fotos e 400 mil nomes para preservar histórias da imigração alemã apareceu primeiro em OBlumenauense | Notícias de Blumenau e do Vale do Itajaí.
