Lúcia Helena Vieira *

Em janeiro de 2021, trabalhadores da Ford em Taubaté, no interior paulista, receberam pela imprensa e por grupos de WhatsApp a notícia de que a montadora encerraria a produção no Brasil. Uma decisão que mudaria a vida daqueles profissionais chegava até eles por canais externos à empresa.

Na rede de concessionárias, a falta de informação também teve consequências. À Folha de São Paulo, a proprietária de duas revendas em Minas Gerais contou que soube da decisão pela imprensa e só recebeu o comunicado oficial quatro horas depois.

O fechamento de fábricas envolve questões econômicas e sociais que ultrapassam a comunicação. Mas o episódio ajuda a compreender um problema presente em organizações de qualquer porte: o que acontece quando quem precisa explicar uma decisão ao público ainda não foi informado sobre ela?

Isso pode ocorrer no anúncio de uma reestruturação, na mudança de um serviço público, na alteração de regras de atendimento. A direção divulga a novidade, concede entrevistas e publica nas redes. Na outra ponta, colaboradores descobrem o que mudou quando alguém lhes pede uma explicação.

Além do constrangimento, há uma mensagem implícita nessa escolha: essas pessoas são necessárias para executar a decisão, mas não foram consideradas na preparação do anúncio. A confiança na própria liderança pode ser abalada justamente quando a organização mais precisa de suas equipes.

Essa experiência ruim interna repercute externamente. colaboradores mantêm contato com clientes, cidadãos, fornecedores e parceiros. São procurados porque trabalham ali, conhecem a rotina e, por isso, suas palavras têm o peso da experiência. A segurança com que esclarecem uma mudança, assim como a perplexidade que demonstram diante dela, é parte da percepção que os outros formam sobre a instituição.

O público interno é uma fonte importante de credibilidade. O discurso institucional ganha consistência quando encontra respaldo no cotidiano de quem trabalha na organização. Perde força quando essas pessoas relatam uma realidade incompatível com os valores anunciados.

Comunicar internamente exige, portanto, mais do que distribuir uma cópia do release. As equipes precisam compreender os motivos da decisão, seus efeitos sobre o trabalho e as orientações para o atendimento. Também precisam encontrar espaço para perguntas. Quem está próximo da operação pode identificar dificuldades e antecipar dúvidas que chegarão depois pelos canais de reclamação ou pela imprensa.

Há situações em que o sigilo ou a necessidade de divulgação simultânea limitam a comunicação antecipada. Ainda assim, é possível planejar o esclarecimento às equipes, preparar as lideranças e estabelecer canais de resposta. Esses cuidados fazem parte da própria decisão.

Informar tampouco significa obter concordância automática. Pessoas podem compreender uma mudança e discordar dela. A confiança depende também da possibilidade de apresentar objeções e receber respostas honestas.

Antes de buscar reconhecimento externo, uma organização precisa considerar a experiência de quem a conhece por dentro. Afinal, a credibilidade anunciada ao público será colocada à prova, todos os dias, no contato com essas pessoas.

* Jornalista e Consultora em Comunicação|Presidente da Associação Catarinense de Imprensa

 

 

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