Quanto da história econômica de Blumenau passou, de alguma forma, pelo algodão? A pergunta ganha sentido nesta quarta-feira, 7 de outubro, Dia Mundial do Algodão. Em uma cidade que teve na indústria têxtil um dos principais motores de seu desenvolvimento por décadas, a fibra esteve ligada a uma cadeia que ajudou a movimentar fábricas, gerar empregos e transformar a economia local.

A primeira indústria têxtil de Blumenau surgiu em 1880, com os irmãos Hermann e Bruno Hering. A Karsten começou sua trajetória logo depois, a partir da instalação de teares adquiridos na Alemanha. Altenburg e Teka são outros exemplos de empresas centenárias que ainda estão na ativa.

O peso desse setor cresceu ao longo do século XX. Material preservado pela Hemeroteca Digital Catarinense registra que, a partir dos anos 1950, a indústria de transformação passou a ser a principal atividade econômica de Blumenau, com predomínio do segmento têxtil. Na década seguinte, o município já aparecia como o primeiro polo têxtil de Santa Catarina e um dos maiores do país.

Essa história também passa diretamente pelo algodão. A antiga Artex, fundada na cidade em 1936, chegou a operar uma cadeia que começava no plantio da fibra e seguia até o produto têxtil acabado. Mas antes de virar fio, malha, toalha ou camiseta, há um caminho bem mais longo.

Onde nasce o algodão brasileiro

Hoje, a maior parte dessa matéria-prima vem de longe de Santa Catarina. Mato Grosso é, com ampla diferença, o principal estado produtor do país. A Bahia aparece na segunda colocação. Juntos, os dois estados concentram a maior parte da cotonicultura brasileira.

Dados do IBGE referentes a 2025 mostram Mato Grosso como líder nacional na produção de algodão herbáceo. Para 2026, as estimativas também mantiveram os dois estados muito à frente dos demais produtores.

No prognóstico divulgado pelo instituto para 2026, Mato Grosso respondia por cerca de 72,7% da produção nacional de algodão em caroço e a Bahia, por 16,7%. Somadas, as duas unidades da federação representavam quase 90% do total.

A produção também está presente em estados como Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Maranhão, Piauí, Rondônia, São Paulo e Tocantins, entre outros, segundo os levantamentos agrícolas do IBGE.

Na safra 2025/26, a Companhia Nacional de Abastecimento estima que o Brasil alcance 4,14 milhões de toneladas de algodão em pluma, o maior volume da série histórica da Conab. A área cultivada ficou em aproximadamente 2,02 milhões de hectares. (gov.br)

Do plantio à abertura dos capulhos

O algodão não é uma cultura de ciclo curto. Segundo a Embrapa, o tempo entre o plantio e a maturação depende da variedade e das condições climáticas. Cultivares consideradas precoces podem chegar à maturação em cerca de 120 a 130 dias. Nas de ciclo médio, o período varia de aproximadamente 140 a 160 dias. Já as tardias podem ultrapassar 170 dias.

A época de semeadura muda conforme a região e o sistema de produção. Em Mato Grosso, onde grande parte do algodão é cultivada como segunda safra depois da soja, o calendário fitossanitário estabelece períodos específicos para o plantio. Em 2026, os produtores tiveram até 28 de fevereiro para concluir a semeadura nas regiões definidas pelo Instituto de Defesa Agropecuária do estado.

Na Bahia, o calendário acompanhado pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais do estado, com dados da Conab, indica plantio concentrado principalmente entre novembro e fevereiro. A colheita se estende, em geral, entre maio e setembro.

Durante o desenvolvimento da lavoura, aparecem os botões florais, as flores e depois as chamadas maçãs do algodoeiro. Quando essas estruturas amadurecem e se abrem, formam os capulhos, deixando a fibra branca exposta.

É aí que começa outra etapa da viagem.

Colhido no campo, o algodão ainda não está pronto para a fábrica

Nas grandes áreas produtoras, a colheita é mecanizada. O algodão retirado da planta ainda reúne fibra e sementes e precisa passar pelo beneficiamento.

Depois de colhido, o material é compactado no próprio campo em grandes módulos ou “fardões”. De acordo com publicação técnica da Embrapa, esses volumes podem ser levados até a unidade de beneficiamento por equipamentos específicos, como o transmódulo, e por carretas.

Nas usinas beneficiadoras de algodão, conhecidas como UBAs, começa a separação.
As máquinas retiram impurezas e separam a pluma das sementes. A fibra limpa é então prensada em fardos menores. A Abrapa informa que um módulo pode originar, em média, fardos de cerca de 230 quilos, que seguem para comercialização com as indústrias.

Antes da expedição, a qualidade da pluma também é analisada. Características como comprimento, resistência, cor e finura ajudam a formar lotes com padrões semelhantes destinados às fiações. O Ministério da Agricultura mantém, inclusive, um programa oficial de qualidade para as análises feitas nos fardos produzidos no país.

A partir daí, entram os caminhões. 

O transporte rodoviário tem papel central na movimentação do algodão entre as áreas produtoras, unidades de beneficiamento, armazéns, portos e compradores. A própria Conab acompanha os fretes das regiões produtoras e registra a pressão provocada pelos embarques de algodão sobre as rotas rodoviárias.

Quando o destino é a indústria nacional, os fardos seguem para as fiações. Ali, a pluma passa por novas etapas até ser transformada em fio. Só depois vêm processos como tecelagem ou malharia.

É nesse ponto que a matéria-prima produzida a milhares de quilômetros dos polos têxteis começa a tomar a forma mais conhecida pelo consumidor.

Uma planta, centenas de usos. E nem tudo termina na roupa. 

A Embrapa aponta que a fibra de algodão pode ter mais de 400 aplicações industriais. O destino mais conhecido é a indústria têxtil, mas diferentes partes da planta são aproveitadas em outros segmentos.

Do caroço pode ser obtido óleo. Resíduos do processamento têm aplicação na alimentação animal. O línter — conjunto de fibras curtas que permanece aderido à semente — pode servir de matéria-prima para produtos de celulose e outros usos industriais.

A FAO, agência das Nações Unidas para alimentação e agricultura, também relaciona derivados do algodão à fabricação de produtos como papel, filmes, plásticos e itens farmacêuticos. Ou seja, o algodão que aparece na etiqueta da roupa é apenas uma parte de uma cadeia muito maior.

Abrapa leva essa cadeia para perto do consumidor

É justamente esse percurso que a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) quer colocar em evidência neste 7 de outubro. Por meio do Sou de Algodão, a entidade celebra o Dia Mundial do Algodão com a campanha “Naturalmente Presente”.
A proposta começa por uma pergunta: o que deixaria de existir sem o algodão?

A iniciativa busca mostrar ao consumidor que a fibra não aparece apenas no produto pronto. Antes de chegar à loja, há uma rede formada por produção agrícola, beneficiamento, classificação, transporte, fiação, indústria têxtil, confecção e varejo.

“É exatamente esse o espírito da nossa campanha deste ano: mostrar que o algodão não está apenas no produto final, mas em cada decisão, em cada etapa e em cada mão que passa por essa cadeia”, afirma Renata Caixeta, gerente de desenvolvimento de negócios da Abrapa à frente do Sou de Algodão.

Criado pela associação em 2016, o movimento nasceu com a proposta de estimular uma consciência coletiva em torno da moda e do consumo responsável, além de aproximar profissionais da cadeia produtiva e levar informações sobre a matéria-prima ao público.
Neste mês, o Sou de Algodão completa dez anos.

Uma das frentes desse trabalho é o Algodão Brasileiro Responsável (ABR), programa de certificação que adota critérios ambientais, sociais e econômicos. Na safra 2024/25, 79% de todo o algodão produzido no Brasil recebeu a certificação ABR, segundo dados do programa.

A Abrapa também desenvolveu o SouABR, iniciativa de rastreabilidade que permite acompanhar o caminho de determinados produtos desde a fazenda onde a fibra foi produzida.

As informações percorrem diferentes elos da cadeia e podem chegar ao consumidor por meio de um QR Code na etiqueta. O sistema conecta dados da propriedade rural, unidade de beneficiamento, fiação, tecelagem ou malharia, confecção e varejo. Em 2025, o programa chegou a 319.647 peças rastreáveis.

As comemorações pelos dez anos seguem durante outubro e incluem um desfile no São Paulo Fashion Week ao lado do estilista Ronaldo Fraga.

Para Blumenau, a data também permite olhar para trás. Muito antes de uma peça chegar ao cabide, o algodão passou pela terra, enfrentou meses de cultivo, foi colhido, beneficiado, transportado e transformado em fio. É esse fio que encontra uma cidade onde teares, malharias e confecções ajudaram a construir boa parte da história econômica local.

Acompanhe o Sou de Algodão:

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