O plenário do Senado deve votar, depois do primeiro turno das eleições, a proposta de emenda à Constituição que reduz a jornada máxima de trabalho no Brasil de 44 para 40 horas semanais. A previsão é que os senadores retomem as votações presenciais em esforço concentrado na segunda semana de outubro. A PEC 221/2019 foi aprovada pela Câmara em maio e passou pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado em 2 de setembro. No mesmo dia, a base do governo desistiu de levar o texto ao plenário por falta de garantia dos 49 votos exigidos em cada um dos dois turnos.

O texto prevê dois dias de descanso remunerado por semana, sem redução salarial, e transição de 14 meses até o limite de 40 horas.

Para Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S, PhD pela Unicamp e gestor de carreiras, o debate chega ao plenário dividido entre qualidade de vida e custo, e deixa de fora a medição do que acontece dentro de cada hora. “Antes de decidir quantas horas cabem na semana, alguém precisa medir o que cabe dentro da hora”, afirma.

Quatro horas a menos equivalem a cerca de 9% da jornada contratada de cada trabalhador. Santos cronometra operações industriais e administrativas há 20 anos em projetos de melhoria de processos. Segundo ele, as empresas perdem tempo equivalente ou maior dentro da própria rotina. “Quando cronometro uma semana de um processo, raramente encontro menos de quatro horas de espera: a aprovação que não chega, o relatório refeito porque a instrução veio errada, a reunião que termina sem decisão”, descreve. “É desperdício do sistema, e desperdício se resolve com método.”

O especialista avalia que a lei, se aprovada, terá efeitos distintos conforme o controle que cada empresa tem sobre os próprios processos. “Na empresa que não mede nada, a redução entra como 9% de custo, com o mesmo desperdício espremido em menos tempo. Na que fizer o dever de casa, a restrição pode ser o empurrão que faltava”, avalia.

Santos recorre à história da gestão industrial para sustentar o argumento. O Sistema Toyota de Produção deu origem ao Lean, conjunto de práticas voltadas a eliminar desperdícios, e surgiu no Japão do pós-guerra, em um ambiente de escassez. “Restrição bem administrada costuma produzir método”, pondera.

A recomendação dele aos gestores é começar pela medição, antes da planilha de custos. “Escolha um processo, cronometre uma semana e separe o que é execução do que é espera. Esse número mostra de onde as quatro horas podem sair”, orienta.

Para os profissionais, a discussão também muda o critério de valorização. “A pergunta que vai definir carreiras na próxima década é quanto vale a hora entregue. Quem souber fazer a hora render vai escolher onde, como e por quanto trabalha. O Congresso vai decidir o tamanho da semana. O que cabe dentro dela será decidido empresa por empresa, processo por processo”, conclui.

Sobre Virgilio Marques dos Santos

Virgilio Marques dos Santos é PhD em Engenharia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Master Black Belt em Lean Seis Sigma e sócio-fundador da FM2S Educação e Consultoria, startup sediada no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp. Trabalha há 15 anos com desenvolvimento de carreiras, futuro do trabalho e transformação organizacional. É autor do livro “Partiu Carreira“, TEDx Speaker e palestrante em temas de gestão, inovação e liderança.