Um derrame cerebral costuma ser associado a pessoas mais velhas, mas a idade não é garantia de proteção. Em Santa Catarina, os números do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) chamam a atenção para uma realidade que também envolve adultos jovens. Entre janeiro e 5 de outubro de 2026, foram registrados 114 atendimentos por suspeita de Acidente Vascular Cerebral (AVC) em pessoas de 20 a 39 anos.
O número já ultrapassa os 96 chamados contabilizados durante todo o ano de 2025, representando um crescimento de 18,7%. E não é apenas nessa faixa etária que houve aumento. Considerando todas as idades, o SAMU catarinense realizou 2.656 atendimentos relacionados à doença até o início de outubro, contra 2.600 ao longo de todo o ano passado.
Os dados foram divulgados pela Secretaria de Estado da Saúde (SES) nesta quarta-feira (28/10/26), às vésperas do Dia Mundial do AVC, celebrado em 29 de outubro.
Mas existe um detalhe importante nessa comparação. O crescimento dos chamados não significa, necessariamente, que mais pessoas estejam sofrendo derrames.
A cardiologista Amanda Souza de Andrade, coordenadora médica da Unidade de Suporte Avançado (USA) do SAMU no Meio-Oeste catarinense, explica que a população pode estar mais atenta aos sintomas. Com maior acesso à informação, aumenta também a possibilidade de alguém reconhecer uma situação suspeita e procurar ajuda pelo telefone 192.
O que pode provocar um AVC em pessoas mais jovens?
Pressão alta, diabetes e obesidade não são problemas exclusivos de quem passou dos 60 anos. Essas condições também aparecem entre adultos jovens e estão entre os fatores que aumentam o risco de um AVC.
A lista inclui ainda o tabagismo, alterações cardíacas congênitas e o consumo de drogas ilícitas, especialmente cocaína e anfetaminas. Segundo a cardiologista, o uso dessas substâncias merece atenção particular entre os mais jovens.
Existe também uma causa menos conhecida: a dissecção das artérias cervicais. O problema afeta vasos sanguíneos localizados no pescoço, como as artérias carótidas e vertebrais, responsáveis por levar sangue ao cérebro.
Nesse caso, ocorre uma lesão na camada interna da parede arterial. O sangue pode penetrar entre as camadas do vaso e formar um hematoma, estreitando ou até bloqueando a passagem do sangue. A situação também favorece a formação de coágulos capazes de interromper a circulação cerebral.
A dissecção pode surgir espontaneamente, mas também estar relacionada a traumatismos na região cervical, mesmo leves, ou a movimentos bruscos do pescoço.
Nem todo AVC acontece da mesma maneira
O AVC pode ocorrer de duas formas principais. A mais comum é a isquêmica, responsável por aproximadamente 85% dos casos, segundo o Ministério da Saúde. Ela acontece quando o fornecimento de sangue a uma região do cérebro é interrompido.
Os outros 15% correspondem ao tipo hemorrágico, provocado pelo rompimento de um vaso sanguíneo. O sangramento pode ocorrer dentro do cérebro ou no espaço entre o órgão e a meninge, uma das membranas que o revestem.
Embora seja menos frequente, o AVC hemorrágico apresenta maior risco de morte em comparação ao isquêmico.
O corpo dá sinais. Saber reconhecê-los pode fazer diferença
Uma pessoa que começa a falar de maneira enrolada, apresenta a boca torta ou perde repentinamente a força de um braço pode estar sofrendo um AVC. Essas alterações costumam aparecer de forma súbita e não devem ser ignoradas.
Entre os principais sintomas estão:
- Dificuldade repentina para falar ou compreender o que outras pessoas dizem;
- Fraqueza ou dificuldade para movimentar um dos lados do corpo;
- Desvio da boca, deixando o rosto assimétrico;
- Perda de equilíbrio ou outras alterações neurológicas que surgem de repente.
A orientação é acionar imediatamente o SAMU pelo telefone 192, mesmo quando existe apenas a suspeita.
O motivo da urgência está no próprio funcionamento do cérebro. Quando uma região deixa de receber sangue adequadamente, suas células começam a sofrer danos. Quanto maior a demora no atendimento, maior pode ser o comprometimento.
A rapidez do socorro influencia diretamente as possibilidades de tratamento e recuperação, além de reduzir o risco de consequências graves, como dificuldades permanentes de movimentação, fala e memória.
Outra informação pode ajudar a equipe médica: o horário em que os primeiros sintomas apareceram. Caso ninguém tenha presenciado o início, é importante informar quando a pessoa foi vista pela última vez sem apresentar alterações.
Hábitos cotidianos também entram nessa conta
Embora nem todos os fatores de risco possam ser eliminados, algumas mudanças de rotina ajudam a diminuir as chances de sofrer um AVC.
Entre as recomendações da cardiologista estão acompanhar a pressão arterial e os níveis de colesterol, manter uma alimentação equilibrada e evitar o cigarro e as drogas ilícitas.
A prática regular de exercícios também faz parte dos cuidados. A orientação é reservar pelo menos 150 minutos por semana para atividades físicas, além de procurar manter o peso adequado.
Os números registrados em Santa Catarina reforçam uma mensagem que não depende da idade: diante de sinais repentinos de um possível AVC, esperar para ver se a pessoa melhora pode comprometer as chances de recuperação. O atendimento precisa começar o quanto antes.
Fonte: Governo de Santa Catarina
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