Há clientes que chegam ao Tribus e já sabem em qual mesa querem sentar. Há profissionais que conhecem seus pedidos favoritos, sugerem um drink conforme o gosto de cada um e acompanham encontros que se repetem há anos. Na Praia dos Amores, em Balneário Camboriú, essa familiaridade faz parte de uma história que completa três décadas em 2026 e que será celebrada com três noites de festival, nos dias 9, 10 e 11 de outubro.

A programação reúne Brothers e Máquina Viva na sexta-feira (9), Mr. McFly e Tempestade no sábado (10), e Stone Jockers e Vintage Cult no domingo (11), véspera de feriado. O DJ Marcios, residente da casa, participa das três noites. Os ingressos estão à venda pela Sympla (https://www.sympla.com.br/produtor/tribusbarbc).

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Fundado em 1996 por Luiz Carlos Costa, conhecido como Luizinho, e Maira Beatriz, o Tribus é hoje comandado pelo filho deles, Gustavo Costa.

Antes de se tornar um pub dedicado ao rock, nasceu como um bar na areia da Praia Brava. Depois dos danos provocados por um ciclone e da retirada da estrutura daquele endereço, recomeçou na sala e no quintal da casa da família.

Parte desse quintal permanece no bar: árvores que já estavam ali antes da mudança de uso do imóvel continuam dentro do Tribus. Entre reformas, ampliação dos ambientes e novas fases do negócio, elas são uma presença concreta da casa que deu lugar ao ponto de encontro.

Uma equipe que conhece quem está do outro lado da mesa

O vínculo com os frequentadores aparece em detalhes da rotina. A equipe reconhece clientes, conhece preferências e sabe que determinadas mesas têm um significado especial para quem volta sempre. A indicação de um prato ou de um drink pode partir de conversas anteriores e do conhecimento construído ao longo dos encontros.

Essa proximidade também é resultado da permanência dos profissionais. Mary Chiapetti, funcionária mais antiga, trabalha no atendimento há mais de 15 anos. Outros integrantes acumulam cinco, oito e até 15 anos na casa, acompanhando diferentes momentos da vida dos clientes.

Ao longo desse tempo, o Tribus viu amizades se formarem, casais se conhecerem e grupos criarem seus próprios rituais. Um deles é o Grupo Saga, que tem nome, logo e identidade próprios. Segundo estimativa do estabelecimento, cerca de 75% do público é composto por frequentadores recorrentes ou pessoas que chegam por indicação.

Para Gustavo, essa convivência integra a experiência tanto quanto o que acontece no palco ou chega à mesa. A longa trajetória permite um atendimento próximo, no qual a equipe tem repertório para apresentar novidades sem perder de vista aquilo de que cada cliente gosta.

Da areia da Praia Brava ao quintal da família

A história começou com a aproximação da família com o litoral. A irmã de Gustavo frequentava a Praia Brava para surfar, e os pais passaram a visitar a região com mais frequência. Quando surgiu a oportunidade de adquirir um espaço na praia, Luizinho negociou o local e reformou o ambiente.

A decoração com palha e uma estrutura rústica inspirou o nome Tribus. O primeiro endereço ficava ao norte do rio, na Praia Brava, onde o bar permaneceu por cerca de dez anos. Durante o verão, o movimento ocupava a areia. Nos períodos mais cheios, eram montadas mais de 150 mesas, e a operação diária seguia pelo Carnaval. O trabalho da temporada sustentava a família nos meses de menor procura.

Gustavo começou a participar dessa rotina ainda adolescente, por volta dos 13 ou 14 anos. As férias escolares eram divididas com o trabalho no negócio dos pais, em uma época em que a relação com os clientes se construía entre o mar, as mesas e o atendimento da família.

O recomeço aconteceu dentro de casa

Em 2004, um ciclone atingiu a região e causou danos ao Tribus. Segundo Gustavo, a parte de alvenaria foi a mais afetada. A família tentou recuperar o espaço, mas a medida que impedia a permanência de bares sobre a areia inviabilizou a continuidade naquele endereço. A estrutura acabou sendo desmontada pela prefeitura.

“Eu vi meu pai chorar pela primeira vez naquele dia”, recorda Gustavo.

O bar era o patrimônio da família e sua principal fonte de sustento. Diante das dificuldades, Gustavo passou um período trabalhando em outro estabelecimento. Luizinho e Maira, enquanto isso, começaram a reconstruir o Tribus no imóvel onde moravam, na Praia dos Amores.

Uma geladeira que restou da antiga operação estava entre os poucos recursos disponíveis. A sala e o quintal passaram a receber as primeiras mesas. Vieram os almoços, os pratos executivos, as feijoadas de sábado e os amigos que queriam ajudar aquela história a continuar.

Gustavo deixou o emprego e voltou a trabalhar com o pai. A família fez balcões, adaptou os ambientes e buscou soluções para proteger o público da chuva e do vento. As melhorias aconteciam conforme o movimento permitia.

No endereço atual desde 2006, o Tribus cresceu até ocupar o imóvel inteiro. A família deixou de morar ali, e os antigos espaços domésticos passaram a abrigar cozinha, depósito, escritório e atendimento. As árvores do quintal ficaram, preservando um pedaço desse recomeço.

Clientes participaram da reconstrução

A frequentadora Vivian Carla Brand lembra que a mobilização dos amigos ganhou um nome: “Re-ergue o Tribus”.

“Depois da demolição, existia uma vontade muito grande entre nós de ajudar aquela história a continuar. Chegamos a criar a campanha ‘Re-ergue o Tribus’ e, quando a família começou novamente no novo endereço, acompanhamos esse recomeço de perto. Vieram as feijoadas, os encontros entre amigos, as comemorações e, aos poucos, o Tribus foi se reconstruindo junto com essa comunidade”, conta.

Na memória de Vivian, a forma de receber das pessoas ajudou a manter esses laços. Luizinho acolhia os clientes sorrindo e se despedia na porta; Maira cuidava do caixa; os filhos participavam da rotina.

“O Tribus sempre foi um negócio de família que acabou criando uma família ainda maior”, resume a cliente.

Sabores que também contam a história

Mandioquinha com bacon (Divulgação)
Mandioquinha com bacon (Divulgação)

Algumas receitas atravessam as fases da casa e permanecem entre as escolhas dos frequentadores. Uma delas é a mandioquinha com bacon, presente desde 2007. Gustavo conta que a ideia surgiu de sua preferência pela combinação de mandioca e bacon: em vez de acrescentar o bacon por cima da porção, decidiu envolvê-lo nos pedaços de mandioca.

O prato ficou e se tornou uma das referências do cardápio. Outro pedido antigo e querido pelo público é o mignon com molho de quatro queijos.

Hoje, o menu leva a assinatura do chef Bruno Faro, professor de gastronomia na Univali e finalista de concursos gastronômicos. A proposta atual convive com receitas que já fazem parte da memória dos clientes, mantendo espaço para os sabores conhecidos enquanto apresenta novas possibilidades.

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O preparo na própria cozinha é um dos diferenciais destacados por Gustavo. Molhos e temperos são feitos pela equipe, com uso de ingredientes naturais e recebimento diário de hortifrúti. O cuidado está tanto na escolha do que entra nas receitas quanto na manutenção do sabor que os frequentadores reconhecem.

A coquetelaria feita na casa

Na carta de drinks, o Guns ocupa um lugar especial. Criado pelo próprio Tribus, tem Jack Daniel’s Honey entre os ingredientes e permanece no cardápio como uma das bebidas marcantes da casa.

A receita é anterior à chegada do mixologista Johnny Oliveira, responsável pela atual carta de coquetelaria. Seu trabalho reúne criações autorais e releituras de clássicos, ao lado de um drink que já havia conquistado espaço entre os clientes.

Segundo Gustavo, a preparação também começa antes da montagem no copo. Os xaropes e purês utilizados nos coquetéis são produzidos pela equipe a partir das frutas, em vez de comprados prontos. Esse trabalho permite acompanhar as etapas de preparo dos ingredientes que compõem as bebidas.

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Entre drinks e destilados, a oferta ultrapassa 85 opções. Para ajudar na escolha, a equipe utiliza o contato com os frequentadores: conhecer suas preferências permite sugerir uma novidade ou indicar algo próximo do que já gostam de pedir.

A relação em torno das bebidas também deu origem ao Clube do Whisky Tribus, de participação gratuita. Os integrantes têm um espaço reservado para guardar suas garrafas e participam de eventos fechados e noites de degustação.

O rock ganhou espaço a pedido dos frequentadores

A música ao vivo entrou na rotina do novo endereço por iniciativa do público. Primeiro vieram as apresentações de voz e violão. Com a resposta dos clientes, a família investiu em acústica e no fechamento de parte do ambiente para receber shows.

A Dazaranha foi a primeira banda dessa fase, em formato acústico. Depois, a programação regular às sextas e aos sábados fortaleceu a ligação do Tribus com o rock.

Atualmente, a curadoria reúne artistas de Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo, além de tributos a grandes nomes do gênero. Com capacidade para 350 pessoas, entre mesas e área em pé, o pub combina shows, gastronomia, coquetelaria e a convivência construída ao longo dos anos.

Três noites para celebrar três décadas

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O festival de aniversário reunirá seis bandas e o DJ Marcios entre 9 e 11 de outubro. A comemoração encontra um Tribus renovado, após reforma do espaço, atualização do cardápio e investimentos no atendimento e na programação musical. Ao mesmo tempo, quem atravessa a porta ainda encontra referências de outras épocas: uma receita de 2007, um profissional que conhece seu pedido, a mesa preferida e as árvores do antigo quintal.

Texto: Renata Rutes