Gisele Prim Biz *

Um coral, uma orquestra e um maestro, o produto desta soma: um espetáculo.

Espera! Não seria só mais uma das muitas tríades que fazem parte da nossa existência como a altura, a largura e profundidade; o sólido, o líquido e gasoso; o nascimento, crescimento e morte?

Será que em meio à miséria humana que tem nos consumido, no caos que está o mundo, valeria a pena pararmos para refletir sobre um espetáculo?

Eu digo sim! Porque tamanha riqueza vale o tempo, vale o empenho, vale a entrega.

Um coral, quatro naipes de vozes, e três grandes lições que antecedem a técnica: coragem, humildade e capacidade.

É preciso coragem para ter a própria voz. Cada novo dia nos pede uma voz ativa, não apenas um ruído que se perde nos afazeres. Uma voz que comunica com clareza aquilo que carrega; que é relevante o bastante para mostrar-se em um grito orquestrado: eu existo, como sou!

Humildade para aceitar que as cordas vocais pedem aquecimento. Quisera eu que no jogo da vida também nos fosse permitido: aquecer e ensaiar nossos atos antes de cada desafio. Porém, não. Nossa passagem por esta terra é um berro na chegada, é respirar por conta própria até o último suspiro.

A capacidade de entender o tempo de cada naipe, de saber que cada uma precisa aprender a sua melodia. São como as almas viventes, cada qual com seu ritmo, cantando a música que só ela conhece, seja triste ou alegre.

Uma orquestra, quatro grandes famílias de instrumentos e suas características. Ouso dizer: suas personalidades. Se há vaidade? Pode até existir, mas ela não consegue perdurar, tem que se dobrar à partitura, ao compasso e à pulsão que urge por harmonia.

Ela me faz lembrar das entidades públicas, privadas, religiosas tão cheias de gente. Ah, se esta gente agisse junta como um conjunto orquestral. Quem sabe a vida teria mais ordem, mais afinação e mais beleza.

O maestro. Nele há conhecimento apurado, e torna-se inesquecível quando chama para fora a alma de cada músico e a emoção de cada coralista. Seria ele uma versão de midas, que ao erguer a batuta tem o poder de transformar o que fora apenas um ajuntamento em ouro musical? Talvez quem sabe a figura de um pai presente, que é capaz de identificar necessidades e corrigir desvios. No fundo eu penso que por minutos, ele tem uma posição quase teológica, aquela do Deus com maiúsculo, que orquestra a vida e permite que cada um expresse o seu melhor, basta querermos.

* Gisele Prim Biz é aluna da Escola de Criação Literária da Academia de Letras de Balneário Camboriú; e Coralista do Coro Filarmônico de Balneário Camboriú.