Em Balneário Camboriú, o Camelódromo é uma pequena Babel de retângulos coloridos. Nos corredores, gente de muitas origens aprende a língua universal da pechincha. Bolsas, perfumes, roupas, calçados e eletrônicos disputam espaço nas bancas. As grifes mudam, as vitrines se renovam, mas o desejo de levar alguma coisa por um preço menor permanece.
Foi ali que bastou uma sigla — 6×1 — para a conversa virar tempestade. Um comerciante e alguns frequentadores trocaram insultos. Braços de terceiros impediram que as palavras se transformassem em golpes. Dezenas de celulares se ergueram para filmar a cena. Ninguém, porém, pareceu interessado em fazer a pergunta que realmente importava: por que não aceitamos uma opinião diferente da nossa?
A discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1 ultrapassou os limites das bancas e chegou ao Congresso. No Senado, a PEC foi aprovada por 75 votos a um. Entre os corredores, entretanto, o placar era outro: a dificuldade de conviver com quem pensa diferente.
No dia 25, milhões de brasileiros estarão diante da urna. No primeiro turno, mais de 33 milhões não compareceram. Somados os votos brancos e nulos, chega-se a um contingente próximo de 40 milhões de pessoas que não escolheram um candidato. Há muitas razões para isso: desencanto, protesto, indiferença, desconfiança. Talvez também o cansaço de uma política que, tantas vezes, exige paixão onde deveria oferecer argumentos.
A polarização fez uma curiosa reforma na vida nacional: já não basta discordar da ideia; parece necessário desgostar de quem a defende. O adversário deixou de ser alguém com outra opinião e passou a ser alguém que não merece sequer um cumprimento.
A emoção também vota. E não há mal nisso. O problema começa quando ela dispensa o pensamento e transforma o candidato em ídolo, o adversário em inimigo e a urna em instrumento de vingança.
Por isso, antes de perguntar em quem você vai votar, experimente uma pergunta mais incômoda: o que está fazendo você votar? A competência de quem disputa seu voto? As propostas, a trajetória, os compromissos? Ou o desejo de impedir que o outro vença?
O voto é secreto, uma delicadeza da democracia. O pensamento, porém, precisa ser livre.
Depois da eleição, o país continuará sendo o mesmo para todos: para quem venceu, para quem perdeu e para quem se recusou a escolher. A democracia não exige que pensemos igual. Exige algo bem mais difícil: que não percamos a humanidade por pensar diferente.
Quem sabe o primeiro passo seja pequeno. No próximo corredor, baixar o celular, guardar o insulto e voltar a cumprimentar o vizinho. Afinal, a eleição termina. A convivência, não.
